Eu tava com ela em Búzios, e ela tinha mania de carta. Ela mandava muita carta, pra todo mundo, né? Carta, carta, carta. Aí eu disse: “Ana, vamo fazer um livro.” […] Então eu falei: “Ana, escreve uma carta longa aí, uma cartona, e a gente faz um livrinho chamado Correspondência Completa.” Não é a correspondência completa e é uma carta só, aqui dentro. […] aí foi tudo xerox aqui dentro. Cortado com a mão e grampeado. E […] ele começa na segunda edição, esse livro. Ele é todo mentiroso. Eu acho engraçado porque Ana Cristina se deliciava com o engano, enganar. Então ele não tem primeira edição. Eu me lembro tanto desse momento em que a gente botou a segunda edição. Ela disse: “Os bibliófilos vão ficar procurando a primeira edição, e não existe.” Então eu tô contando esse episódio porque eu acho que isso tem a ver com a estética dela, com a dicção dela. Ela realmente tinha isso. “Cadê a primeira edição?” Começou pela segunda. Quer dizer, é sempre um despistar. Ela bota atrás uma bibliografia dela falando de uma coisa que não existe. É o próximo, na gráfica, no prelo. Ou então é o livro anterior. Enfim, é um livro que não existe. Quer dizer, é de enlouquecer um cristão, que sai procurando. Gente que faz tese, coitada…

Heloisa Buarque de Hollanda sobre Correspondência Completa, publicado em 1979 por Ana Cristina Cesar.