(a correspondência, por exemplo, é por natureza uma escrita perdida)

ARTIÈRES, Philippe. Arquivar a própria vida. Revista Estudos Históricos: Arquivos Pessoais. v. 11. n. 21. Tradução de Dora Rocha. Rio de Janeiro. Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas. Janeiro-junho de 1998. p. 10.

 

Cássio Andrade me enviou hoje, às 1:52h:

Oi, estou lendo este eBook e gostaria de compartilhar esta citação com você.

“Desde a segunda das Considerações intempestivas, Nietzsche aponta o esquecimento como uma força plástica fundamental para a vida. É possível viver quase sem memória, ele diz, mas é impossível viver sem o esquecimento. Neste texto em que discute as vantagens e desvantagens da história para a vida, Nietzsche considera memória e, consequentemente, história coisas que devem ser tanto afirmadas quanto negadas. Em outras palavras, lembrar somente é importante se a capacidade de esquecer for mantida. Tanto o sentido histórico quanto sua negação são igualmente necessários para a saúde, tanto de um indivíduo quanto de uma civilização. Esta relação memória/esquecimento vai ser tratada de forma ainda mais elaborada em Genealogia da moral[51]. Ali, o problema vai ser pensado a partir de uma reflexão sobre a consciência. A consciência é apontada como possuindo duas faculdades, a memória e o esquecimento. Nietzsche utiliza a imagem do estômago, “o ‘espírito’ se assemelha mais que tudo a um estômago”[52], para se referir ao papel da consciência: ela “digere”, na medida em que assimila ou rejeita, selecionando, simplificando, reduzindo, processando. A capacidade de lembrar fixa as impressões, produzindo uma camada de sentido que funciona como um fundo ou um lugar de reconhecimento. A partir desse fundo as novas impressões que chegam não são sentidas, mas reconhecidas pelas marcas mnêmicas; o que termina por produzir uma repetição, uma “digestão” do já sentido. É a memória, portanto, que torna possível a promessa e, consequentemente, a responsabilidade e a culpa. Através da memória o ser humano fixa as leis e pode prometer. Isto significa que a memória, ao contrário do esquecimento, que é uma necessidade, uma força, uma forma de saúde, é um produto da cultura. “Como fazer no bicho-homem uma memória?”, pergunta Nietzsche, e, mais adiante, “grava-se algo a fogo, para que fique na memória: somente o que não cessa de causar dor fica na memória”[53].” (from “Nietzsche e a grande política da linguagem” by Viviane Mosé)