Carta ao Arcebispo católico do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, enviada por e-mail às 23:27h.

 

Caríssimo, gostaria de pedir que apague as luzes quando for falar. E que fale de tarde. Que anoiteça enquanto fala. De modo que escureça totalmente antes de ser ponto final sua voz. Caríssimo, não note o absurdo, é que eu acho linda a ideia. Começar falando em meio à luz natural, à vista de seu público, mas terminar sem ser visto e sem nem ver ninguém. Só sua voz, ocupando a grandiosidade apagada duma catedral. É por isso: lhe envio e-mail porque é bonito acontecer em uma catedral, sabe-se lá porque, isso de terminar em escuridão e em voz, a sua. Que seja uma missa, talvez. Gostaria de assistir uma missa que me pusesse dentro da noite. Gostaria… e é mesmo: gostaria de ouvir de dentro dessa noite você, ainda falando por deus. Sendo assim, cê seria mais óbvio no encarne que já é, do elo noturno entre ele e nós. Além de que numa escuridão tal sua voz poderia ser a dele. Eu lhe peço: adentre a noite falando, para esquecermos teus contornos de homem, e lembrarmos a falta de contornos dele, que é uma fala, deus, verbo, carne, hálito e nós… Dom Orani, me avise se fizer isso. Obrigado. Um abraço.