Carta ao Cemitério São Francisco Xavier, Cemitério do Caju. Rua Monsenhor Manuel Gomes, 155. Caju, Rio de Janeiro, RJ. CEP 20.931-670.

 

Oi, gente. Tudo bem? Esta carta é para avisar sobre o que aconteceu com as cinzas da minha avó. Ela foi cremada aí há muito tempo. Eu tenho trinta anos agora. Acho que isso aconteceu quando eu tava mais pra adolescente. Enfim. Só que o que aconteceu: ela foi cremada, mas minha família não pôde fazer o que ela gostaria que fosse feito: ela queria que suas cinzas fossem pro Uruguai onde nasceu. Mas não tinha dinheiro, ninguém tinha dinheiro pra fazer uma viagem até lá. Tem a família dela por lá também, mas tampouco deu pra alguém deles ajudar nesse translado. Então as cinzas ficaram trancadas numa cômoda aqui em casa. O curioso é que esse móvel está até hoje no meu quarto. Então eu cresci com isso: não abra essa gaveta, as cinzas da sua avó estão aí. Dormi por meio que uma década com as cinzas dela pertinho de mim.

E fui com elas vida afora; mais uma história minha. Se tornou comum, vez ou outra, eu lembrar disso e fazer uma brincadeira, comentar que dormia com cinzas. E numa dessas vezes era esse ano; eu, minha namorada e um amigo nosso, sentados numas escadas, e eis que me recordo que ainda não havia contado pra nenhum dos dois sobre… Foi muito engraçado, claro. Rimos da estranheza nisso. Mas, no fim do dia, eu recebo um e-mail dele. Esse amigo, ele acabara de ser avisado de um seminário em que ia participar em Montevidéu, final do ano. Surpreso com a sincronia, sugeriu levar as cinzas em sua mochila e fazer um funeral discreto, às margens do Rio da Prata ou outra coisa que eu preferisse, pra serem sopradas pelo país que ela escolheu.

Na hora, fiquei muito tocado. Conversei com minha mãe, que conversou com parentes uruguaios no seu celular, que conversaram entre si, e decidimos aproveitar a viagem dele pra que as cinzas chegassem às mãos de meu tio-avô. Foi o que ocorreu. Lá, foram postas no mesmo ponto onde foram postas as cinzas de outros de seus irmãos: às margens de um rio talvez desconhecido, algum ponto com água corrente. Era uma paisagem em construção agora, mas este trecho d’água permanecia. Lá foi. E abri meu e-mail, enviei algumas palavras àquele meu amigo. Tava emocionado e lhe agradeci.

Não é comum pensar em falar sobre memórias como essas pra quem cuidou dos corpos de nossos entes. Mas é que desde que vi a fotografia de uma pequena cinza do Museu Nacional que voou até as mãos da sua fotógrafa, em São Cristóvão, percebi que essas fuligens nos interessam tanto quanto o que foram antes, e que por isso continuam a fazer dentro de nós, no fundo dos nossos olhos e dos nossos crânios, as emoções que nos empurram… como todas as emoções empurram-nos. As cinzas fazem sentidos por si mesmas. São tão legíveis quanto os documentos que foram, são tão audíveis quanto as pessoas que foram. Mas eu imagino que, íntimos que vocês são delas, já devem saber um cadinho sobre isso.

Por isso, um abraço. Não teria mais o que dizer.

Atenciosamente,