Destinatárias: Barcas do Estado do Rio de Janeiro.

Praça Araribóia, nº 6 e nº 8, Centro – Niterói – RJ. CEP: 24020-030.

 

Oi,

Foi viajando dentro dum catamarã que ouvi pela primeira vez aquele aviso dizer que estão proibidas apresentações de arte nos transportes públicos do Estado. Repentistas, rappers, dançarinas, poetas, pessoas com instrumentos musicais sumiram repentinamente em minhas viagens. No máximo tenho visto violinos guardados em maletas, um violão posto numa capa e preso às costas de alguém, b-boys e b-girls movimentando timidamente os pés entre si, quase secretamente. Eu sei, é fácil identificar que eu pouco me incomodava com as apresentações de artistas nas barcas e veículos terrestres. Mas também sei bem que muitas pessoas tinham motivos sérios contra tudo isso.

Imagino a estranheza em assistir uma apresentação para a qual não se comprou o ingresso. Se ver batendo palmas, por educação, para algo que não despertou prazer. Sentir constrangimento pelos argumentos que os incentivam a doar dinheiro para quem se exibe em seu trabalho artístico. E eu pergunto: e quando se é a pessoa que cruzou a cidade, trabalhando de modo extenuante, cansada, sendo pega de repente por outra pessoa fazendo de uma atividade aprazível como a arte, feita de livre e espontânea vontade, uma fonte de renda? É de se pensar, para quem se vê nas engrenagens mais duras da nossa vida citadina, que essas outras pessoas querem é escapar do destino duro pra maioria de nossa sociedade. E construindo isso só pra elas mesmas, a título de vocação artística como argumento, separando elas mesmas da maior parte da população, postas como sua audiência e fadadas a somente se engajarem mantendo a diversão remunerada destas a partir do salgado dinheiro em seus bolsos, suado, vindo de um trabalho que não lhes garante prazer quase nenhum. Bem, há uma maioria que vive em uma dupla jornada de trabalho inescapável, em que a busca por dinheiro e a busca por razão de ser e felicidade não coincidem, pondo-as a trabalharem separadamente por cada um desses objetivos. Portanto, entendo que pareça absurdo para uma boa parte de nós que algumas pessoas queiram sustentar uma vida profissional coincidente com uma vida prazerosa ao pedirem financiamento e ao se apresentarem de modo que seja difícil lhes dizer não, sob a dificuldade que é pedir para não as assistir quando se faz parte de uma multidão: a de passageiros em um transporte público. Sentimo-nos coagidos e coagidas a aceitar toda e qualquer apresentação artística ali, mesmo quando queremos somente o ruído estranhamente calmante dos carros e da cidade na hora de seus congestionamentos.

É possível contra-argumentar que isso é hipócrita por parte da população. Porque as mesmas pessoas que pagam ingressos para ver artistas em estádios são as que condenam artistas de rua, e que elas não questionam o ganha-pão divertido de artistas de sucesso, só o de artistas pobres. Mas aqui penso os atos, absolutamente distintos, que as audiências de artistas de sucesso e de artistas de rua fazem. Pois a busca por artistas bem-sucedidos é voluntária, claro, apesar de influenciada pela mídia, que forma e transforma o gosto artístico da maior parte de nós. É voluntária: buscamos esses e essas artistas. Nós é que seguimos seus passos, nos dispondo a comprar ingressos para suas apresentações ou até mesmo a encarar filas quilométricas antes de lhes assistir.

Já com artistas em transportes públicos não. Não nos predispomos a buscá-los, não fomos nós a lhes seguir, mas eles e elas que vieram até nós. A coisa aqui muda, pois não somos nós voluntariamente indo em direção aos seus trabalhos artísticos, mas estes e estas que nos vêm. Então o paradigma muda: já não voluntários, somos, na verdade, inquiridos por tais artistas urbanos a lhes assistir. E eles e elas nos imputam a responsabilidade em escolhermos, em tomarmos sua palavra ou não, em colaborarmos com sua arte ou cessarmos o contato com ela. Também insinuam que desenvolvamos responsabilidade para, assim, tornamo-nos sensíveis às mensagens urgentes que carregam, vindas dos confins violentos ou redentores de onde as dizem. Portanto, já não é um ato voluntário como quando vamos ver artistas de sucesso. Assistir-lhes é uma responsabilidade, um trabalho, antes mesmo de ser qualquer prazer.

E ter de assumir o papel de responsável por qualquer coisa é cansativo. Eu pelo menos acho. Escolher deliberadamente uma obra de arte é gostoso e é uma delícia porque nos põem em agência, porque se dá por nossas próprias decisões individuais. Sentimo-nos indo em direção à obra de arte sem a sua oferta por si só. É como se escolhêssemos ela em uma gôndola de supermercado. E é uma sensação ótima a de escolher entre um refrigerante e outro na gôndola de um supermercado. Faz-nos sentir em ação, com poder de escolha. É disso que falo quando falo que as apresentações de artistas de sucesso, com as quais nos engajamos voluntariamente, nos põem em agência.

Mas foi aí que percebi uma coisa. Ou melhor: foi aí que eu delirei. Foi aí que pensei que talvez a arte de rua esteja construindo outro mundo dentro deste mundo. Um mundo onde a relação com os serviços, com a arte e com todo o trabalho humano não seja mediada pelo consumo, mas pela responsabilidade. Um mundo onde as pessoas não se vejam mais como clientes ou servidoras, mas somente como pessoas mesmo. Um mundo onde serviços sejam feitos por vontade, não por um salário. Um mundo onde, por sua vez, serviços sejam recebidos de boa vontade, com a calma de quem tem todo o tempo do mundo. Um mundo onde, portanto, entremos em trens e vagões para atentarmos à muitas mensagens trazidas da cultura hip-hop, da juventude negra, de Jesus Cristo, das favelas, das nações indígenas, do norte e nordeste, ou até mesmo dos Estados Unidos da América, quando estes mostrarem sua arte gratuitamente para todos os povos do planeta. Um mundo onde, ao chegarmos em casa, os televisores, computadores e celulares permaneçam desligados, satisfeitos que estaremos do contato com a cultura encarnada. Um mundo onde a arte funcione mais como uma política gostosa e horizontal que como a política do sucesso, sustentada por todos os fracassos. Um mundo onde a qualidade da arte não seja mais importante, já que abolida toda a competitividade. Um mundo onde a economia seja a da fartura e não a da escassez, e onde não falte espaço para ninguém se expressar. Um mundo onde, por fim, ao desejarmos vermos filmes ou teatros, entremos em coisas como ônibus ao invés de entrarmos em lugares como shopping centers.

Eu disse que era um delírio. Sei da inaplicabilidade de tudo isso que disse. Sei que esse sonho pouco refuta toda a coerência de quem se queixa da arte nos transportes cotidianos. E talvez eu envie justamente para vocês, as barcas do Rio de Janeiro, por acreditar que, por habitarem as águas e não as terras deste Estado, sua relação com este lugar e suas leis possa ser mais fluida, mais desapegada, e que por isso vocês sejam, um dia, a vanguarda desse mundo utópico que digo, conduzindo circos e circos ao mesmo tempo em que conduzem o todo da população rumo a outro destino.

Se for isso, e mesmo que não saibam ou desacreditem, eu gostaria de lhes dizer meu muito obrigado.

Com amor me despeço.