Esta carta foi entregue nas mãos de um dos seguranças do Paço Imperial, no Rio de Janeiro. Lhe foi dada guardada em um envelope em que escrevi meu endereço e e-mail, além da informação por escrito no lado oposto do envelope, na qual eu disse quem eram os destinatários da carta: a própria equipe de seguranças do Paço. os erros de português são o resultado de escrever de modo um pouco mais despreocupado (sem corrigir os errinhos de digitação, de gramática e de desenvolvimento das ideias) (além de escrever dando a ver as ideias inacabadas também; falando das dúvidas, das hesitações e dessas mudanças de ponto de vista, quando nos damos conta que falamos merda kkkk….. bem. e não tem nada de específico com relação aos caras lá do paço; era uma vontade que eu já tava há um tempão, de escrever assim..). Foi por pensar também em outras coisas (que p.ex. uma desobediência da norma culta, assim como uma fala mais prosaica, dizem respeito a escrita da maior parte de nós) q quis tentar escrever desse jeito. acho que é da busca por um estilo mais nosso de conversar que esse texto faz parte. e ele é um estágio ainda rude disso. digo isso porque ele não é exatamente como eu gostaria de soar. acho ele pouco natural. os erros se sobrepõem a fluência da fala. e no caso dos destinatários – os seguranças – acho preocupante que ele ganhe uma visibilidade pública, tendo em vista isso: que ele soe como dizer que os caras não dominam a norma culta, ou falam errado, ou qualquer coisa dessas. Não vou consertar o texto, porque quero lembrar dessas coisas todas que falo aqui – e quero correr o risco também de ser visto como alguém desagradável, burro, preconceituoso, mas ainda assim enviar a carta, essa carta, como está (vai que ainda assim vale a pena pra alguém de lá/? – essa esperança estranha em acertar o alvo mesmo voluntariamente de olhos fechados). Mas aí talvez trazer à público o texto possa ser contraprodutivo às preocupações contra a exotização linguística dos nossos (o que incorre em equívoco grande…. só lembro do antonio conselheiro, de como foi e é tachado de louco e doente quando tinha uma produção em palavras ditas e textos (recém publicados) digna do pensador que era. enfim)…. dois pontos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oi gemte. Bem, deve ser meio estranho, assim, receberuma carta meio do nada. Um cara estranho entregando uma carta pra vocês. Pode parecer algo suspeito, mas na real, de verdade mesmo, eu queria que essa chegasse como uma mensagem de carinho, de estimulo, de admiraçã, sobretudo. Porque não é de hoje queeu tenjo ideia que vocês tem uma relação assim, próxima e generosa com quem visita aí o paço, com as coisas de arte que tão postas aí. Mas é que, duma das ultimas vezes que visitei, cara!, tive ideia d uma outra faceta no que vocês fazem e são no dia a dia. Bem, daí queria falar disso com vcs. 🙂

Bem, foi quando eu tava correndo prai. Já sabia praonde. Uma amiga tinha me dito dum texto que ela achou absurdo. Ele tava posto na exposição do Ai Weiwei. E aí eu fui no paço pra ver isso. E eu entrei nele. Seguindo as instruções dela, fui direto pro lugar: o final da sala do térreo, antes da porta de vidro que dá praquele inflavel preto grandão, que é o trabalho do ai weiwei sobre os refugiados. E aí encontrei, na parede contígua a porta, esse texto. Tava numa legenda pequena, um pedaçinho de plástico colado na parede. Mas maluco, o bagulho parecia enorme pros meus olhos de tão estranho que o papo era. Vou até colar aqui pra ces verem:

Lei da Viagem faz alusão aos refugiados atuais que cruzam o mar Mediterrâneo para chegar na Europa. A obra está instalada no mesmo lugar por onde um dia entrou um dos mais notórios refugiados de nossa história, Dom João VI, que fugia de Portugal prestes a ser invadido por Napoleão. A chegada desse nobre refugiado mudou a história do Brasil.

Perae. Quer dizer que quem escreveu o texto acha realmente que é comparável o lance do D Joao com os dos refugiados atuais? Tá, talvez a coisa toda que ele tenha dito possa ser uma metáfora, ou mesmo uma ironia. Mas eu pensei uma ou duas coisas sobre isso:

i – a fuga de dom João de portugal com todo mundo da corte foi cercada de acordos com os invasores, isso antes e depois. São coisas que tão nos livros de historia da escola e na internet também, saca? Já pro tanto d gemte refugiada de agora, o lance é outro. É um grande contingente de gente saindo de um país em que não é mais possível viver para um outro que não é e nunca será o país deles. E pro D João, putz, era sair de um país completamente seu pra um outro que também era completamente seu: o brasil, colônia portuguesa. Muito doido..

ii – e o lance racial nisso tudo? Comparar um homem branco, um “nobre refugiado”, com um monte de gemte que não é branca, tentando entrar na europa e sendo hostilizada por todos os lados por um continente que submeteu todo o mundo, que sugou e suga recursos mundiais, que tem seu bem estar ancorado em empreendimentos violentos q são postos nos países mais ao sul do planeta.. e que é um continente de pessoas c pele majoritariMente mais clara. o continente d Dom João VI, uma das peça chave que deram força à colonização global, que hoje põem as condições tão ruins pra pessoas como… os refugiados!. Sabe?

Ê, maluco.. eu fiquei bolado com essa história. Tava ali e confirmava essa história do texto na parede que minha amiga me contou. Fiquei pensando por um tempo sobre a posição de certas pessoas, ensinando ao mundo, dignas de porem seus textos nas paredes gloriosas do nobre paço imperial, e tudo isso.. sei lá,  sei que um tanto de pessoas lerão essas palavras aí na exposição do ai wei wei como algo comum, natural, como um raciocínio inteligente que é, mas sem ver sua assimetria desoladora: esse desequilibrio entre refugiados e nobreza; esse tranquilidade em equivaler essas diferenças, contribuindo assim para o sumiço da dor de tantos, apequenados mesmo frente ao prestígio de uma pequena etiqueta de plástico numa exposição brasileira.

E daí fui virando minhas costas e indo embora na direção da porta em que havia entrado. Foi quando ouvi uma voz. Não me recordo exatamente o que ele dizia, mas sei que falava para uma família de turistas que visitavam a galeria. Era um segurança quem falava com eles, um de vocês. claro, não saberia dizer qual, mas lembro do assunto que era conversado. O cara falava da condição de vida de pessoas negras, das dificuldades, mas se preocupava em combater com sua fala aquela falta de conhecimento comum sobre nossas referências nacionais quando se trata da negritude. Ele comentava então sobre andré rebouças, em como sua posição como um sujeito importante para esse país coincidia com uma luta antirracista. Enfim. Ele tinha tudo na ponta da língua. Mandava ver nas palavras, e na relação dessa conversa com um dos trabalhos de Ai Weiwei, aquele dos couros de vacas mortas escritos com mensagens sobre a violência racial, desde tamnto tempo…

Dali decidi subir pras galerias do próximo andar, pensando ainda nessa calma e tranquilidade que me veio ao ouvir esse cara – de saber que alguém estava fazendo um bom trabalho ali, no paço, com suas palavras. Que as palavras dele estariam muito mais bem postas num texto na parede da exposição que as que lá estavam. Mas vamos lá.

Cheguei no próximo andar e, ao entrar na exposição, ainda consegui ouvir uma voz linda cantarolando, antes de se encerrar abruptamente quando pisei no recinto. Era um cara com uma voz bonita demais, provavelmente um cantor. Claro, ele parou de cantar porque, imagino, o paço nem outros museus devem permitir que seus funcionários cantem enquanto trabalham. Bem, é uma pena. eu realmente gostaria de visitar museus em que os funcionários pudessem cantar e sair e entrar e ficar felizes e brabos e conversarem a vontade. Mas um museu como esse só poderia existir quando não existisse mais a sociedade tal qual a conhecemos, rs. Enfim, estou tendo meus delírios.

Mas aí quis conversar com ele quando parou de cantar. Tentei puxar um assunto, disse que a voz dele ela maneira e tal. E daí engrenamos num papo que caiu naquele lugar mais do que comum: conversar sobre o tempo. rs. Falamos então de como o tempo estava feio, como tinha mudado do nada, como estava chovendo de modo que parecia que nunca ia acabar. Eu lhe disse que tinha até marcado uma praia com minha namorada pro fim de semana, mas achava que não ia rolar. E daí ele disse: ‘Não se preocupe! Pode confiar que, no máximo, no domingo o sol já vai estar de volta no céu e você vai poder ir com ela pra praia.’ Bem, não me recordo mais se fez sol realmente no fim de semana. É possível que sim, mas talvez tenhamos esquecido de ir, frente a tantos dias de chuva que molharam o chão e o céu.

Esse papo todo me recordou duma vez que eu estava trocando umas mensagens com ela. Sobre outro assunto que não tem nada a ver com isso que falei aqui até agora. Pelo menos não diretamente. Vou falar disso, rapidinho:

A gente tava conversando antes sobre um grupo de rap que eu gosto muito, o Facção Central. Mais especificamente, de um clipe deles, o Isso aqui é uma guerra. E por isso enviei por sms esse clipe para Mariana. Ela comentou que entendia agora, vendo o clipe, o papo que nós tínhamos tido antes, de que o vídeoclipe tinha sido censurado na televisão. Porque esse clipe, em que eles encenam um assalto a um banco enquanto cantam seus versos, pode ter sido visto por muitas pessoas como um incentivo à criminalidade, ou como um ato de violência através da mídia televisiva. E isso quando, na verdade, ele é como os textos em que escritores assumem a voz de uma outra pessoa, como as novelas em que atrizes assumem o corpo de uma outra mulher. Eles ali faziam como esses artistas, tomando em seu corpo uma realidade outra. Ainda que nisso possamos ver o que há de mais perverso: que, ainda que eles não fossem realmente assaltantes de banco naquele momento, eles são próximos a quem mata e morre pelas armas em nosso país: pessoas negras, pobres e faveladas, seja na posição da criminalidade, seja como agente da segurança pública e privada (como vocês são, aí no Paço). E seja como inocentes também; a maioria que morre sem envolvimento com nenhuma dessas partes.

Daí comentei com ela que sim, eles foram vetados na televisão num primeiro momento, sob revolta pública. E que isso reverberou na carreira deles, em como eles (e mesmo outros grupos de rap) buscaram um afastamento da mídia, ou uma posição crítica em relação a ela. Que se tornou difícil desde então ver o Facção Central e mesmo seus integrantes em carreira solo se apresentando para o ‘grande público’, vamos dizer assim. Foi quando ela comentou: “Nesse caso não ter relevância fora do rap se torna tb uma proteção.”

E isso me pegou, sabe? O que ela disse faz todo o sentido. Por exemplo, vejo isso na postura do eduardo, que cantou no facção central e segue carreira solo atualmente. Ele estimula e só trabalha a partir de projetos autogestionados, sem acordos com gravadoras, editoras, grande mídia. Sempre produzindo e distribuindo com e para favelados. Não aparece na globo, na record, na rádio, pura e simplesmente porque não quer: porque reconhece que seu público é o das favelas e guetos. E que, portanto, criar um canal direto com seu público, sem a influência venenosa da opinião interesseira dos outros setores da sociedade, é a forma exata de agir como artista; é seu maior sucesso, sua mais alta relevância. Ainda que sim, pequena e para um seleto contingente da nossa população. Por isso, por ela ter dito isso, entendi que Mariana me disse, na verdade, que aquilombar requer desapego de certas amplitudes de prestígio.

Quando digo de aquilombar, tô fazendo referência aos quilombos sim, tipo aquele do quilombo dos palmares, por onde os negros e indígenas iam fugir da escravidão e fazer uma nova sociedade. Mas, sobretudo, tô dizendo do sentido figurado que esse nome, quilombo, tomou pra nós: que tomou um sentido de resistência das pessoas que não são brancas e ricas, quando juntas. Esse sentido de resistência que temos quando nos vemos comungando juntas as mesmas ideias, a mesma forma de combater as injustiças do mundo, de modo que criamos um outro mundo, um outro projeto de sociedade, quando nos unimos e falamos e gritamos e combatemos. Por isso talvez tenha me sentido tão bem ao ouvir um de vocês, trabalhando aí no Paço como segurança, falando sobre negritude, cheio de orgulho. Vi que somos uma só comunidade, um quilombo. E que vamos fazendo nossa sociedade assim, na medida pequena e real da extensão das nossas vozes, da fala para quem nos importa, da empatia de quem te ouve e te escreve uma carta em agradecimento por você ter falado, por você ter cantado aí, demonstrado prazer, leveza e liberdade. Muito obrigado, gente! Muito obrigado! Mas ainda não quero terminar esse papo por aqui. Ó só:

Lembro de Rona. Um artista foda demais, morador do Lins. Um cara importante, produzindo arte da mais alta qualidade e aquilombado, junto aos seus, fazendo projetos com a comunidade donde está desde sempre e com outras pessoas negras, d outros lugares. Uma vez tive a oportunidade de ouvi-lo numa exposição por aí, num lugarzinho chamado Pence, na Lapa. Foi quando o conheci, e olha o que o cara tava falando!: que acreditava que os artistas dessa postura diferente, preocupada em fazer junto com os seus achegados, tinham que pôr a mão na massa e fazerem exposições em espaços que não fossem galerias; fazer peças de teatro em lugares que não fossem auditórios; meter o louco e fazer shows de música em espaços que não fossem palcos de casas de show. Entendo, Rona. A gente precisa ir pra onde a gente tem com quem falar… E nem sempre nesses lugares tem palco, auditório, parede pintada de branco pronta pra receber uma pintura pendurada nela. É foda… às vezes tem (e que bom!), mas é bom pensar no que importa mais, em qual público é o seu.

Mas lembrei dele também porque, nessa ocasião, nessa exposição aí em que o ouvi falar, tinha uma obra sua exposta que tratava sobre os Refugiados. Era uma parada linda, sensível a beça. Pequenos espelhos pintados com figuras pequenininhas, silhuetas em preto, rostos em perfil, por vezes deitados pra cima e em suas bocas, próximo a elas, a escritura da palavra ‘ar’ em letras pretas, como se fossem o último fôlego de quem tenta cruzar oceanos para chegar num outro lugar. E esses espelhos, que espelham nossa imagem quando olhávamos pra eles, que coisa foda… Putz, não sei nem explicar esse trabalho. Ele me pegou profundamente, gente. E eu só pensava ao ver ele que queria muito fazer ele se encontrar com vocês, essa equipe de seguranças que tem estado atentos e dispostos a conversar sobre arte, política, que tem estado disposto a alegrar esse ambiente vazio e silencioso com suas vozes e cantos. Que educam, ainda que esse não seja o trabalho pelo qual vocês foram contratados aí. Ainda que por vezes haja quem veja isso como uma subversão das próprias regras bobas de silêncio e austeridade das exposições de artes visuais, em que tem quem pouco saiba das coisas e, ainda assim, ponha suas palavras nas paredes, como as que aí estão, próximas a obra dos refugiados feita pelo Ai Weiwei.

Penso na Pence, esse lugar onde estava acontecendo essa exposição onde fui. Olha só, vou descrever aqui o que está rolando por lá agora, o que vocês encontrariam nesse lugar em que quis que vocês estivessem trabalhando, falando, sei lá:

– chegando perto da fachada bonita do casario tem uns cartazes pendurados no segundo andar. São amarelos, com letras vermelhas e pretas garrafais, tipo aqueles cartazes de supermercado, saca? então… Mas eles vem escritos com mensagens ambíguas: “Bolsa 12x 0,00”, “Laranja Seleta 2000,00. Aceitamos RG”… Coisas assim, que confundem porque eles parecem coisa de supermercado, mas são disfuncionais. rs.

– daí a boa é entrar no lugar e reparar que a parte de fora destoa total da parte de dentro: por dentro a casa é uma loja com poucas peças, em estantes de madeira, com rap tocando e um bar ao fundo, mas lá fora… toda a vida da lapa está cruzada: botecos, musica alta, comida a beça, turistas misturados a galera que vive da rua, e por aí vai.

– mas aí tem uma escada de madeira e então reparamos que não vimos tudo na Pence. Subindo nela, na parede que dá no final de seus degraus, há uma pintura toda feita em traços vermelhos. Na imagem uma estrada aparece com um caminhão a percorrendo. Um homem grita ao lado dele. Poderia dizer que é um grito de pavor, de horror, mais isso contrasta com o resto da imagem. É que o céu da imagem está todo ocupado de bandeiras, com o arco da apoteose e com um grito escrito: ARREEPIIIIAAA SALGUEIIRRROO.. rs, é o grito do Quinho, puxador do Salgueiro, né? enfim, pelo que me disseram diz respeito a isso…

– bem, e virando numa sala pequena à esquerda, vemos o espaço por onde foram pendurados aqueles cartazes na Sacada. aí continua a exposição de obras de alguns artistas. obras muito diferentes entre si. Vamos ver:

– pode passar até despercebido, mas tem umas letras em branco sobre a superfície da parede em branco à direita. elas parecem feitas de ferro, vergalhão, só que tem em suas pontas setas. é como se as letras fossem feitas de flechas brancas, é isso! Ah, e esta escrito KIÔ. É o que elas escrevem, como o brado retumbante de um caboclo, um indígena.

– Ao lado, tem uma imagem em preto e branco. Uma fotografia grandona de Marielle Franco atravessando de frente um corredor formado por PM’s. A imagem é preto e branco, mas há um desenho em cima da imagem dela, em linhas vermelhas e brancas, que lhe põem uma grande saia, tecidos esvoaçantes, uma coroa talvez, uma arma branca e um outro objeto com longas linhas pendendo para o chão. Bem, não sei descrever tão bem, usar os nomes certos para as coisas ali nela, mas sei, por alguma experiência, que essa segunda veste por cima dela é a de Iansã. eparrey!

– seguimos e damos de cara com uma outra fotografia, de médias dimensões. dessa vez colorida, retrata uma imensidão de pessoas vestidas de branco ocupando as ruas. parece uma manifestação sincrética, de várias religiões diferentes. há faixas de diversos seguimentos religiosos, mas (e não sei se meu olhar está condicionado pelo que vi até então) vejo uma predominância de menções e pessoas da religiosidade afrobrasileira na fotografia. quem sabe seja uma manifestação em solidariedade, algo contra os ataques que certas religiões pretas sofrem. sei lá.

– um desenho estilizado acompanha outras seis fotografias, todas em preto e branco. o desenho é meio o contrário das fotos: nele, uma figura parece gritar, soltando pela boca um raio negro crescente contra uma das paredes onde se encontra. a imagem está toda em trevas, o cômodo onde essa figura se encontra flutua num espaço absolutamente escuro. Mas a cusparada que ela faz contra uma das paredes abre um vácuo crescente de luminosidade nesse ambiente externo trevoso. E as fotos mostram manifestações de pessoas negras, do movimento negro nas ruas. São fotos históricas! antigas, do período da ditadura militar. também há imagens de outros contextos ligados: uma faixa anunciando uma reunião para discutir o racismo numa universidade pública, e um corredor de policiais, provavelmente postos ali como contenção contra os atos de protesto desses movimentos negros. Nesse contexto de repressão, o raio de luz vinha da voz de muitos, e não quebravam parede alguma: iluminavam as ruas, mesmo que nas fotos fosse dia e o sol estivesse à pino.

– falando em grito, olhando um pouquinho pra baixo no seguir dessa parede vemos três canequinhas de alumínio. E dentro de cada uma, uma boca a gritar. uma boca, um rosto que por vezes aparece, mas sempre a berrar do fundo das canecas. De uma mulher negra, de um semblante sério e revoltado.. (quem tem tomado café em chícaras como essa?)

– acima das canecas, um espelho numa moldura circular, com muitos adornos, voltejos, uma moldura toda branca. e pendurada nela diversas contas amarradas, fitilhos de palha de dendezeiro, guias de cores azul, vermelho, branco, preto… No espelho, em sua parte inferior, ainda segue uma frase escrita em tinta branca: só como vc.

– um painel, uma pintura de fundo branco segue a isso que vimos. braços negros emergem de cada limite das laterais dessa pintura. invadem seu espaço de tinta com os punhos fechados, como em protesto, como em briga. um deles segura uma planta, uma espada de santa bárbara (só que essa tem as bordas amarelas… ah é, é espada de santa bárbara mesmo! a outra que é espada de são jorge, eu acho). letras vermelhas percorrem a extensão da pintura e dizem: SÓ COM FÉ NA LU TA.

– Na próxima parte, uma parede de obras tão vermelhas… ao centro dela, uma mulher jovem,branca, de cabelos longos e de vestido vermehlo, carrega uma faca em uma mão e uma espada de são jorge na outra. planta e faca, à frente de um cenário de um fundo vermelho vinho, rodeada de grandes plantas dessas, maiores que ela, sendo que a pintura já é maior do que a estatura de muitas pessoas. Enorme!

– cartazes de cor vermelha circundam essa pintura que mencionei. mostram uma constituição sendo erguida por mãos indígenas; cartazes com pessoas de cabelos feitos de árvores, candidatas indígenas a deputada federal, voto indígena em 2018 com pessoas que empunham maracas. são ilustrações, apesar d serem o que virá [pq eu vi].

– E aí chegamos a última parede da exposição: uma faca cravada nela tem seu punhal cravejado de brilhantes rosas onde se lê “bixa” de um lado e “luta’ do outro. cartazes pequenos são disponibilizados para serem levados numa coisinha pendurada, apesar de estarem fixados alguns na parede. trazem imagens de bolsonaro de calças de palhaço prestes a cair de um alçapão do formato da bandeira do brasil; uma poesia com o cheiro e o gosto do trem que pego pra ir e voltar pra casa – ramal gramacho; uma ilustração de uma família negra, um guarda sol empunhado por uma figura anacrônica… deesenhadas em uma fotografia prosaica duma praia; um parlamento encimado pela frase ‘make brasil grátis again’; um bebê pretinho sobreposto a um desenho de linhas vermelhas e brancas que o põem a puxar uma flechazinha, com um arco em mãos, pronto pra flechar um homem-porco; e a cabeça de Abraham Weintraub sendo cortada em nome de um corte mais justo pela educação, ao invés desses tantos que temos sofrido.

– Há também três fitas rosas, sutis, pregadas com pregos robustos na parede, e q carregam em si três nomes: comportada, virgem e arrumada. Há fotografias de uma mulher negra em movimento, por vezes triplicada nas imagens, em outras sem vestes, onde seus movimentos fazem seu corpo se tornar mais borrão, mancha e cor que imagem da nudez que tanto é polemizada ou hiperssexualizada. Há um vídeo de um homem gritando nu em meio a mata (sua pele mostra sua cor mudando, seu avermelhar-se conforme grita, sua exaustão é intensa). Há um soldadinho de chumbo derretendo, como se suas pernas virassem pouco a pouco o lago que cruzaria numa guerra na mata. Há uma pinturinha de um homem negro com uma máscara (é possível o saber pela cor ao redor dos seus olhos, visíveis pela fenda do gorro). Há uma pintura de alguém com fumaça nas mãos, ao lado de um letreiro que diz G 20 (A fumaça cobre o céu dessa pintura). Há um kit numa caixa de madeira com uma bomba, um cigarro e um isqueiro (e suas instruções sugerem acende-lo p fazer arte). E olhamos pro centro da galeria: um círculo branco no chão com diversos condimentos em saquinhos, terras, temperos diversos, e palavras bordadas em uma linha azul que entra e sai de cada um desses saquinhos, escrevem no solo de pano branco coisas como Nutrir, Afeto, Presença…

Assim a exposição termina.

Ufa!

Agora, o que isso tem a ver com o que falamos até agora? Saca o texto que apresenta essa exposição:

Dizem que a liberdade brasileira se fundou num grito. Um grito que proclamava. Um grito que, não ecoando nos escravizados, morreu às margens do rio. Mas ouviu-se em toda a nossa história, dentre os sons exuberantes da fauna e da flora, muitos outros gritos. Gritos que nada proclamaram, mas que exprimiram as dores inimagináveis da perda, do açoite, da pobreza, do desalento. Um grito que proclama é um farsante, nada exprime além de uma encenação.

O Grito é presença, é imperativo, é visceral, é inflamável!

“Independência ou morte!”. A história nos mostrou que a sentença do futuro imperador, na verdade, não era excludente. Quantos morreram só com o sonho, com a promessa, com a esperança de liberdade? O lamento rompe o silêncio, mas aprisiona a força. Os gritos atravessaram a dor, se fizeram resistência e reivindicaram liberdade no coração de cada revolta, no terreno de cada aldeia, de cada quilombo e de cada Canudos. Gritos que nada fundaram, mas que convocaram os excluídos à luta. Ecoaram em nossos antepassados e ecoam em nós agora.

O Grito é limite, é força, é público, é protesto!

O Grito é voz, é a nossa voz!

Por esse dias estive nos protestos pela morte da menina Ághata, de oito anos, duma favela vizinha do meu bairro (sou das imediações da Penha) que morreu com um tiro nas costas. Eu tinha um grito e um choro presos na garganta ali. Muita gente indignada conseguia gritar por mim, conseguia ter a noção da dor que eu não conseguia ter, mesmo sentindo o peso nos olhos lacrimejados. as escadas da Alerj ficaram banhadas de tinta vermelho-sangue e velas. Era como se, ao mesmo tempo, o horror daquela morte convivesse com as velas que velam as almas de sete dias ou menos q isso… e tudo aí, penso agora. Pertinho, do lado do Paço imperial.

Gente, eu reconheço: talvez esse cara que escreveu o texto sobre o Dom João VI desconheça certas coisas, assim como eu e todo mundo desconhecemos. Tudo bem, faz parte da vida falar sem saber, não temos manuais de instrução para falar, nem pra viver…. Mas é que a legenda dele me gritou tanto, mas tanto… que eu quase acreditei que não houvesse voz mais alta que aquela, a daquele texto. Mas aí ouvi voces, seus cantos, suas falas, seus sorrisos, e me dei conta q pensar assim é besteira. Claro, não é o grito do imperador nem mesmo a lei áurea da princesa isabel, nem a dessa legendinha aí na exposição, que nos ajuda, que fala de modo que fale como cada boca no mundo, em suas singularidades. Como se todas as diferenças pudessem ser representadas por esses textos, assinaturas em papéis históricos, brados retumbantes… rs, é claro que não podem. mas sem dúvidas são essas vozes gritadas na fretne da alerj, elaboradas numa exposição pequenina, herdadas desde tanto tempo pelas avós e avôs, ou mesmo cochichadas, ou dita num volume cordial (mas com toda a pungência do mundo) quando numa galeria de um museu ou coisa assim, que existem para mim. Que me importam. E com as quais aprendo e quero ouvir e ler e tal. São o quilombo nas gargantas, ou são aldeias, ou países que podemos chamar de nossos. bem, é o q eu acho. 🙂

Por isso, por suas vozes que cruzaram meus ouvidos nesse ambiente pretensamente silencioso, meu muito, muito obrigado!

(e que nunca se faça silêncio em um lugar desses. Suas vozes valem ouro)

Com emoção me despeço aqui.

Um abração, tamo junto!