Destinatários: Cassio e Célio de Andrade

cassio_watson@yahoo.com.br; celio.ajunior@hotmail.com

 

cassio, teve um dia que eu tava conversando com celio pelo google duo. tava falando com ele sobre meu gosto atual em mandar cartas. em como tem me feito estar feliz enviar cartas pra lugares, pessoas com quem até então ainda não tinha contato. e, conversa vai conversa vem, ele disse que nem todo mundo pode receber suas correspondências em casa. logo eu, que sempre precisei receber as cartas e correspondências suas e do seu irmão na minha casa, tive que ser relembrado disso de novo por ele, ha essa altura do meu encantamento pelo que vem e vai nos correios. quem vive em favelas não tem esse serviço disponível como nós que vivemos na rua. Para além das balas, da pobreza, dos deslizamentos de terra, das valas abertas, os envelopes não chegam tb, é óbvio.

mas agora mesmo vocês conseguiram realizar os sonhos seus e de toda sua família, e ter uma caixa de correios veio junto com isso. vocês sairam da favela, estão num apartamento, o outro já no canadá. me emocionou muito entrar hoje lá no ap. recém alugado aqui na vila da penha e ver a vó ieda deitadinha no sofá, olhando aquela janela bonita com plantinhas em jarrinhos de cerâmica. daqui a pouco, eu sei, você está já de novo longe, cassio. em outro endereço. vc vai seguir com seu irmão, vai morar no canadá, dar prosseguimento pros seus estudos, tentar a vida por lá. e eu tenho muito orgulho de vocês, sou muito feliz por isso. dessa imensidão que vocês se tornaram, desse mundo todo que se tornou de vcs, desse tantinho de vidas que vocês arrastam pruma melhor.

eu disse que ia enviar uma carta pro cassio, agora que ele pode receber uma. mas vi que logo daqui há uns dias ele parte com sua passagem só de ida pro exterior. reconheço então que não há endereço possível pra ele, nem pra vc celio, nem pra sua família. desejo que muitas outras pessoas possam sentir isso um dia. sentir que as casas são tantas, e que tanto é o espaço possível, que não há endereço. daqui, eu me vejo nesse empecilho: antes não poderia mandar cartas pelo limite imposto aos favelados com relação aos correios. agora, não consigo mandar a carta pela dúvida de pra qual casa mandar, e pela dúvida de que, quando chegar, a carta possa não encontrar mais vocês no msm lugar. por isso envio aqui por email, desejoso que ela siga vcs em todo e qualquer endereço, já que todo e qualquer endereço são seus. obrigado por essa lição, celio. muito obrigado por me fazer lembrar que, pra conversar, vou precisar de mais do que um endereço quando se tratar de algumas pessoas e lugares queridos (como até então fiz com vcs, meus amigos). carrego comigo a partir de então essa lembrança, para não mais esquecer de que ter um endereço é pouco. me emociona viver perto de vocês. e à mágica que a minha vida se torna por isso, mando um brinde à essa distância pertíssima de que me encontro o/.
amo vcs.

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