Destinatária: Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica

Rua Luís de Camões, 68, Centro,    Rio de Janeiro, RJ, CEP 20060-040

 

Vamos supor o seguinte: Jandir consulta, no futuro, VERGARA, Luiz Guilherme et al. Paralaboratório Escola-Floresta – zonas experimentais de confluência – Unidade Tripartida da Arte. Documento redigido coletivamente durante a primeira aula do curso Método e Pesquisa em Artes – Paralaboratório Escola-Floresta, ministrado por Luiz Guilherme Vergara no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no dia 25 de março de 2019. Jandir gargalha. Nesse momento, Jandir está milionário, foragido, tomando um drink num cenário paradisíaco. Um drink sem álcool, porque Jandir não bebe mais álcool. Nem come carne. Enfim, Jandir é previsível no que tange aos modos de ser dos de humanas. E talvez por isso, por esses compromissos com pseudo-coisas do bem™, Jandir para de gargalhar. Uma expressão de sisudez toma conta de sua face, franzindo sua fronte. Jandir está reconsiderando algo.

Jandir encontra um apud com seu nome na página três. Que importância tenho eu no tribunal do esquecimento?, é o que está escrito. Ele sabe: esse apud veio do NERUDA, Pablo. Livro das perguntas. São Paulo: Cosac Naify. 2008. p. 60., que passeou por suas mãos no primeiro dia de aula. O que Vergara chamou de leitura randômica fez com que o livro chegasse às suas mãos naquele primeiro dia. Era um método um tanto estranho. Jandir estranhou Vergara em todos aqueles dias de aula. Nesse primeiro, um livro, esse livro, passeava de mão em mão entre a turma. Cada pessoa o abria em uma página sorteada, lia uma das perguntas ali escritas e passava o livro para uma outra fazer o mesmo. Vergara anotava cada nome e sua respectiva pergunta em silêncio. Só se ouviam suas teclas sendo digitadas. Entre as digitações, Vergara ia dizendo muitas coisas, sim, mas muitas coisas que Jandir não compreendia sequer minimamente. Jandir só recorda Vergara mencionando que aquelas perguntas acompanhariam os estudantes até o fim da disciplina. Jandir sorri novamente, mas de um modo desanimado. Jandir se percebe numa convivência inesperadamente maior com essa proposta.

Jandir, banhando-se em sua praia particular, recorda de como estranhava as aulas de Vergara. Jandir relembra de uma mensagem pessoal do dia dois de abril de 2019, que enviou por seu e-mail mailexpressivo@gmail.com, dizendo de como estranhou ter de ficar de olhos fechados, mexer o corpo, rodar enquanto uma pessoa rodava um recipiente de acrílico no chão, isso tudo a título de discutir um livro de filosofia. Jandir mal conseguiria descrever aquelas aulas. Jandir não entendeu muito bem as aulas. Jandir é rico.

Jandir busca pistas. Jandir sobe as escadas de sua espaçosa mansão. Jandir liga um de seus Macintosh® e reabre as páginas do livro pelo qual fez essas coisas estranhas com seu corpo numa das aulas. Era GADAMER, Hans-Georg. A atualidade do belo: a arte como jogo símbolo e festa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 1985. Como se pode perceber, Jandir está desesperado. Jandir tenta ler filosofia como um detetive. Mas Jandir é rico. Alguém rico não tem porquê ser detetive. Mas Jandir se lembra das tantas vezes que repetiu em aula as ideias que capturou nas páginas vinte e nove e trinta. Jandir reabre o .pdf nessas páginas. Vinte e nove e trinta.

Jandir já não entende lhufas desse trecho. Jandir recorda o trecho que considerava próximo a esse, dum DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é filosofia. Rio de Janeiro: Editora 34. 1992. p. 213. Mas a Jandir isso já não importa. Não são essas ideias que ainda busca. Jandir passa os olhos nesse livro somente para relembrar outra coisa, como quem abre a porta da geladeira para pensar durante a madrugada. E Jandir relembra, revive. Jandir retorna ao momento que sua fortuna se tornou sua. Jandir revisita um conhecimento seu sob àquela leitura, lendo-a pela sensibilidade. Se detém numa memória sua a partir dali, e não naquelas letras, chatíssimas, chatéssimas.

Com isso, Jandir retorna ao dia antes das suas riquezas. Era o fim de uma das aulas. Amanda Erthal, com biscoitos da sorte, os põem numa mesa no centro da roda que formava toda a turma reunida. Diz que aquilo é resposta a uma das propostas de Vergara. Pessoas levantam, quebram biscoitos, dizem dos seus escritos em voz alta. Kevin Shalom diz a Jandir: vamos?, e eles vão. Pegam um só biscoito, cada mão em uma extremidade. Lhe quebram. Jandir observa olhares e sorrisos, talvez alguma voz dizendo: o que está escrito? E lê. Suas mãos devem estar mais ocupadas que sua língua, é o quê está escrito. Suas mãos devem estar mais ocupadas que sua língua. Jandir se surpreende com a frase. Jandir guarda a tira de papel em sua carteira. Jandir observa então que em seu verso há uma numeração. Jandir a guarda para si. Não compartilha com ninguém seus números.

Em agosto de dois mil e dezenove, Jandir aposta a numeração num jogo da Mega Sena. E Jandir se torna um milionário naquele sorteio.

(suas mãos devem estar mais ocupadas que sua língua)

Jandir disfarça sua riqueza. Reclama do clima, reclama do trânsito. Reclama da falta de dinheiro, pede dinheiro emprestado à Mônica Coster Ponte. Jandir nega esmolas, Jandir continua recebendo a bolsa de mil e quinhentos reais do mestrado e faz graça: ainda bem que Bolsonaro não cortou a minha, né? Senão eu tava fodido heheheh (, he said). Jandir some depois que defende a dissertação. Jandir compra umas casas, investe na bolsa, usa roupas caras. Sai do país. Jandir bebe drinks ~ sem  álcool~ em sua casa de veraneio. Jandir está com uma cor de pele bem bonita.

Jandir recorda das aulas estranhas do Vergara um dia. Abre o arquivo redigido há anos por ele. É quando fica sério e corre a ler o livro das primeiras aulas. Jandir está reconsiderando algo.

–  Jandir, talvez sua sorte seja um pouco também de Kevin ou de Amanda.

Ou talvez toda a turma de Vergara e ele mesmo seja relacionada a esses números, que não foram ditos por Jandir, mas que lhe foram solicitados. Abre aspas. O que está escrito aí? Fecha aspas. Foi o quê alguém disse.

Jandir manteve as mãos mais ocupadas que a língua e ganhou sozinho o que talvez fosse de mais alguém. Nisso Jandir relembra dos pedidos de funcionárias do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica por zelo pelo espaço. Faltavam papéis higiênicos, manutenção, faltava pessoal. Jandir sente vontade de ser rico e bom como a Rihanna. Jandir quer ajudar. Jandir deseja ser filantropo.

Jandir retorna. Distribui seu dinheiro todo entre as pessoas das aulas do Vergara, o Vergara, é claro, e o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, é claro. Dinheiro suficiente para mudar a vida de todos os envolvidos. Jandir então retorna para sua casa na Penha Circular. Jandir consegue depois um emprego como monitor em uma das exposições temporárias no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. Jandir avisa para não tocarem na obra, por favor, senhor, não toque na obra. Jandir se sente protegendo algo dele. Jandir se vê completamente dedicado à sua causa. Jandir é um herói da cultura.

Visto isso, reconheçamos: evitar esse futuro é possível; vivê-lo já nem tanto. Ler esta carta para vocês, do curso Método e Pesquisa em Artes – Paralaboratório Escola-Floresta, e enviá-la ao Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, muda o futuro. O torna previsível, quando antes era somente… inesperado. Kevin mencionou em uma das aulas a possibilidade de sermos pesquisadoras como se fôssemos detetives inventando nossas próprias investigações. Vergara falou da forma universal de Fibonacci assim como o pensamento científico, que não chega a um fim, mas se espirala infinitamente, infinitamente, sempre subindo, nunca chegando num ponto final. Virgínia Kastrup nos falou da inversão do método: não mais buscar um caminho que leve ao objetivo, mas ter por objetivo, simplesmente, caminhar. A pesquisa aqui é pura invenção. Só nos serve para seguirmos rumo ao desconhecido sem nunca chegarmos. Como o horizonte: linha de terra inalcançável, mas para onde sempre tomamos rumo.

E também porque ninguém precisa que eu vire um herói da cultura, nem eu mesmo, nem o mundo, em sua fome e pobreza por todo o lado, não é mesmo? Que importância tenho eu no tribunal do esquecimento? Essa pergunta me perturba, pois gostaria de ser esquecido com qualidade, e não com uma iminente mágoa de outrens a me rondar. Por isso deixo minha carteira à vista de todas em uma das aulas, lhes leio esse texto durante esse momento, e o envio como carta para o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, para que sua última linha seja divulgada e atestada, de dentro da minha carteira, por testemunhas, minhas colegas de aula. Essa linha é a em que escrevo o que ainda não disse, dando tempo para que vocês, amigas e amigos de classe, professor e Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, façam suas apostas antes de mim. E tenham a oportunidade de ganhar essa bolada.

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