Destinatário: EAV | Parque Lage
Setor: Biblioteca
Rua Jardim Botânico, 414
Rio de Janeiro, 22461-000
Brasil

 

 

 

Eu tenho essa vida estranha de pássaro morno. Carrego nas penas o que enrubescerá um céu cinza. Mas eu posso lhe ver? Não. É como alguém pode se sentir enquanto anda: seus passos marcam a terra para logo após sumirem sob as pegadas de outra pessoa. Ou no mal saber onde pisou, quando num chão duro. Nenhuma das pegadas fincam no solo como aquelas distribuídas nas calçadas recém-cimentadas. Ser pássaro morno não é coisa só para mim, eu percebo, porque há só um céu para ser preenchido, mas imenso – é este em que voamos.

Se fazer acervo, ser guardado, ter esta carta guardada por vocês, é pisar em cimento fresco. Ter a planta dos pés plantada na terra que nada dá. E crescer aí, onde nada dá. Crescer na falta de terra: o único húmus em que vingará o semeio da vaidade. É também voar como quem preenche o teto do mundo. Como se aninhasse o globo nas minhas asas. Como se lhe pegasse com meu bico e o levasse. Mas não há ninho meu no infinito do que ainda chamo de universo, e não haveria como pousar.

Por isso eu moro no que eu mesmo carrego. Atlante, pelo que aprendi, é um deus grego condenado a carregar o mundo para todo o sempre em suas costas. Mas não sou deus, nem grego sou. Só tenho as costas, testemunha do que ignoro. É pouco.

Minhas costas só testemunharão os passos que já dei, em suas marcas sobre o chão. Talvez só vejam suficientemente até que o vento espalhe os minúsculos grãos de areia em que os pés fizeram fôrma, e então já não mais.

Bem, nisso, hoje gostaria de ser as suas costas, Lage.

Foi em 2008, talvez. Era um dos dias em que estive uniformizado e suado, carregando maletas pesadas com ferramentas, e indo pela primeira vez na Gávea, pra consertar uma impressora fiscal no Jóquei, um dos clientes da microempresa em que trabalhava em Coelho Neto. E eu lembro de uma garota loira que me olhava fixamente enquanto eu descia do ônibus. Tive muita incerteza por seu ato naquele momento. Não sabia se seu olhar demonstrava interesse em mim ou compaixão por minha condição, salgado de suor, provavelmente carregando tristezas em meu rosto novo. De qualquer forma, mesmo que eu estivesse seduzido, na minha falta de autoestima nunca imaginaria ser observado por uma menina loira da Zona Sul. À época, preferi descartar a esperança de que ela me olhava com interesse. Mas hoje acho isso um pouco mais possível. Algum olhar próprio germinou em mim. E, graças à Zambi, olhos como os dela bem menos me importam.

Saltei em frente a sua entrada. Claro, os muros grafitados do Jóquei me encantaram, me fizeram sonhar em subir em qualquer parede e lhe fixar cores como aquelas. Mas aí, todas aquelas faixas verticais dizendo que você era uma escola de arte me fizeram lembrar dos desenhos que eu fazia escondido no trabalho, em cada bobina de impressora que sobrava, como um antidepressivo, uma forma de garantir sanidade. E sonhei estudar em você. Só sonhei, porque imaginava que era uma fortuna lhe cursar, e nem sonhava que estudaria artes, e nem queria arte, coisa que eu pensava que não ia me dar o que comer. O que me faz pensar que, apesar da diferença e da distância, aquelas faixas escritas em você me tocaram. E eu, mesmo sem formular com convicção isso, já tomava em mim a decisão pela arte, germinando ela.

Em 2011, eu já havia largado esse emprego, já tinha convencido minha família de que queria só estudar, para conseguir graduar na universidade pública em que consegui aprovação. Foram dois anos de pré-vestibular comunitário em Madureira, de as vezes ir e voltar a pé da Penha Circular só pra economizar algum troco, e de levar um sanduíche pequeno na bolsa pra tentar aguentar o tranco das longas horas perdidas numa sala de aula no pouco sábado em que tinha folga do meu serviço. Mas não aguentei tanto tempo. Saí faltando seis meses pro vestibular. Dessa vez, contudo, não desisti da prova na segunda parte, como fiz no ano que havia passado. E eu passei. O primeiro da família.

O primeiro da família a saber, por amigos da universidade, que você, Parque Lage, tinha um curso gratuito. Daí, no semestre seguinte, tentei e consegui frequentá-lo. O nome era Fundamentação. Eu o fiz durante as noites do início de 2011.

Numa delas, senti fome de tal forma que minha pressão abaixou. Pintava qualquer coisa quando notei meu suor frio. E lembrei que tinha pouca grana no bolso, que meu dinheiro economizado do trabalho estava acabando já, que não tinha conseguido comer no Subway, que não tinha comido nada há muito tempo. Era 2011, e eu me aventurava muito longe de casa para chegar até aí, lugar em que ia sem faltas. Era noite, e geralmente chegar de madrugada em casa era comum. Não por alguma diversão após as aulas, mas pelo transporte: ônibus, metrô, ônibus, o andar nas rotas perigosas dentro da Penha Circular e Quitungo. E daí chegar em casa. Seguro e bem, apesar do Parque Longe. Foi só há pouco que reconheci que nunca andei sozinho nas ruas. Na época, era guardado sem nem mesmo rezar.

Mas em 2012, apesar de minhas vontades, cheguei a pedir desculpas a um professor da EAV pelo tanto de aulas que faltava. Meu pai estava internado no Hospital Miguel Couto pela primeira vez. E eu seguindo com ele em ambulâncias, temendo seu coração-bomba, desesperado, pensando no porquê a universidade não me dava uma bolsa-auxílio, eu, que ela já havia identificado como um jovem pobre universitário. As bolsas eram poucas, meu pai perigava morrer e eu precisaria cuidar de muita gente além de mim nessa iminência. Por isso pedi desculpas. Não podia mesmo ir assiduamente às aulas. Não tinha cabeça para isso.

Consegui a bolsa universitária num susto. E meu pai ficou bem, o que me permitiu seguir. Depois, tive alguma tranquilidade. Terminei os cursos contigo, e pouco lhe frequentei findado esse período. Descansei da convivência com gente que eu considerava tão rica, tão distante de mim, com as coisas tão fáceis financeiramente, e sem conflitos contigo, como se você fosse uma extensão de suas casas. Tentei até mesmo pagar um curso em você com o que ganhava, mas logo no segundo mês desisti. Para mim era pesada essa grana toda. E eu não escutava nada bem o inglês sem legendas de alguns vídeos em aula, e nada bem escutava as palavras sem legendas tão estranhas a mim, a Madureira e à Penha, ao Quitungo e a Coelho Neto. Claro, descobri depois que poderia ter aproveitado de minha amizade com o professor para ter seguido matriculado sem gastar. Mas já tinha passado. Eu sempre fui meio arisco, nunca fui monitor em aulas nem nunca fui muito próximo das figuras com poder simbólico. Hoje em dia prefiro regar plantas a fazer contatos profissionais, como exemplo.

E vejo que isso tomou maior corpo em 2015, no meu retorno em você, Lage. Era um curso gratuito oferecido para artistas com desenvolvimento de um portfólio. Seu nome era Práticas Artísticas Contemporâneas, Nível II. E lá, em conhecer tantas pessoas generosas e importantes, tanto encantamento, tantas amizades até hoje, foi também quando semeei a vontade de deixar de ser artista. Ter alimentada tão perto de mim a competitividade, a inveja, as comparações, e sem ganhar nada. Prestígio nunca pagou as contas da classe trabalhadora, eu pensava. E mal sabia que me voltava, pouco a pouco, para meu próprio lar como o paradigma ético. Que retornava.

As aulas ali tinham algum incentivo à profissionalização, e eu discordava do modo como se imaginava aquela profissionalização. 2015. Os editais internos eram muitos, e os comentários sobre as seleções de alunas transcendiam as salas de diretoria, chegavam até nossas classes. Vinham como comparações. Alguns professores traçavam os critérios de certo e errado, de bom e mal, enquanto só me ocorria o quanto era patético isso para uma turma de pessoas que já expunham regularmente, ainda que se exibissem em lugares distintos, o que afirmava como cada um atingia um público, como cada uma tinha atuação diferente da outra. Havia também a vontade de que galgássemos mais e mais os espaços de maior relevância institucional, que fizéssemos contatos e amizades com curadores, com artistas mais relevantes, com galeristas, com pessoas-alavanca para nossas próprias carreiras. E eu, que vinha da universidade, e que acreditava na universidade como o lugar que apontou minha vida profissional, pensava que esse modo de conceber carreira era pela monetização do que poderíamos fazer, era da transformação em prestígio do quê fazíamos, mas não era generoso com quem concebia o que fazia como conhecimento acadêmico, como ação afirmativa, como reparação histórica, extensão universitária, como militância, como atividade anticapitalista, como crítica racial, crítica de classe, como dúvida existencialista, como sobrevivência, como saúde mental, como tudo isso e mais.

Certa vez, uma professora falou saber exatamente quem dali seria artista e quem seria arte-educadorzinho. Não sei se falou no diminutivo, mas o tom foi diminutivo. Foi o que disseram. Eu não estava nessa aula. Mas ela mesma me fez um convite, por e-mail, a ser educador em uma exposição de outra instituição um pouco após isso. Foi como se pusesse seu faro, em busca das contradições que via, a trabalhar. E eu aceitei, feliz. Depois soube. E foi só há pouco que terminei meu período de alguns anos trabalhando com educação em exposições. Paradoxalmente à opinião dela, foi de onde ergui um fôlego raivoso em minhas novas investidas como artista. De um trabalho que sempre foi pouco digno. Sempre.

Fui trabalhador da educação em museus por um período aproximado de cinco anos. Mas, ali, sempre trabalhei mais como monitor, como segurança das obras expostas, que como um educador, o nome pelo qual me chamavam. Isso foi algo que alimentou um trabalho performático que desenvolvo com um amigo, o Antonio. E eu mesmo decidi parar de ser Jandir Jr. após conseguir meu emprego e terminar contigo e com a graduação. Quis me recolher das exposições, das relações cordiais com o prestígio, e manter minha vaidade na coleira. Foram dias difíceis, como são difíceis os dias de trabalho para todas nós. Mas fundamentais para eu reposicionar meus próprios desejos, entender que não havia sentença decisória entre ser artista e educador. Que eu sou de uma família de trabalhadoras de base, antes de tudo. Que eu sou trabalhador, antes de tudo. Que eu não sou branco, antes de tudo. Que eu mesmo, mesmo nessa vontade de parar, nunca parei. Que antes quis parar o sentimento ruim que eu mesmo produzia em mim por não me ver seguindo no rumo do que acreditava, duma sinergia mais cotidiana entre o que aprendi em arte e o dia a dia. De uma prática pouco profissional, ou profissional de um modo prosaico: prosadora e simples, com os pés descalços. Pouco solidária às ambições de certa classe, de sua gana por essa estranha prosperidade econômica, de ser meio socialite.

E com Antonio, com essas performances, chegamos a imaginar uma intervenção aí. Fomos convidados por você no 2018 em que nossos trabalhos ganharam algumas exposições a mais. Foi quando estivemos com mais frequência lhe vendo, somente a lhe observar, sentados no pátio perto da piscina, assistindo o enorme fluxo de turistas fotografando, fazendo fila, coreografando a vida consumista que vivemos. Dali, seguimos um dia para o andar térreo, o dos ateliês de gravura, e reparamos num grupo de funcionárias dos serviços gerais conversando bem próximo de onde era o banheiro feminino. Não tínhamos visto funcionárias até então, o que me fez pensar naquele espaço como um lugar de convivência extrainstitucional dos trabalhadores terceirizados, já que esvaziado de seu público visitante.

Essa hipótese tomou ainda mais corpo quando Antonio me chamou a atenção para a arquitetura do prédio, cujas janelas só são gradeadas nesse andar térreo. Ele então levantou a possibilidade de que este andar, protegido e claustrofóbico, fosse o espaço dedicado aos escravizados à época que esta casa aí era o Engenho Del Rey, ou mesmo o espaço de serviçais na época de residência da família Lage, aristocratas que reformaram e nomearam este edifício que você é.

Confirmamos essas impressões após pesquisarmos sobre as antigas transformações de engenhos do século XIX em moradias. Essas casas recebiam divisões entre o lugar de receber visitas, o de repouso e o de serviço. A área de serviço, assemelhada a um porão, precisava estar ligada à rua diretamente, enquanto as outras não. E só a área de serviço possuía ligação direta com a cozinha, a única parte próxima ao salão de jantar onde também chegavam as visitas. Não é semelhante a sua estrutura, Lage? A ligação com a cozinha, a proximidade do salão principal – que provavelmente já foi essa tal sala de jantar – e o aspecto remoto e cavernal do térreo, em que tantos terceirizados circulam carregando cargas, comida, vassouras, todos os dias.

Nossas performances acontecem conosco vestidos como seguranças de exposições. Uma maneira de comentar que ocupamos o lugar de trabalhadores de base no circuito de arte, assim como nossos pais, avós, bisavós, foram e são trabalhadores de base e, ainda mais anterior que isso, foram escravizadas. Era o quê faríamos por aí, e já estávamos certos que o lugar para performarmos seria essa área de serviços não declarada. Mas nossa colaboração com a sua escola não aconteceu. Na velocidade dos dias, quando vimos, esse interesse havia sumido pelo ar como um balão estourando. Já não tivemos mais respostas interessadas aos nossos contatos. Nem sei direito como, mas não quis. E esse foi o último contato com você que gostaria de mencionar aqui.

Por que?

Porque talvez esta seja, na verdade, uma carta de notícias. Pra dizer que ando bem, Lage. Que tenho tido mais tempo de consertar as coisas aqui em casa. Que tenho cuidado de um pequeno animalzinho de estimação muito doente, com pouco cálcio nos ossos. Que tenho enviado cartas, e isso é tudo o que faço de mais autoral hoje em dia. E me satisfaz um monte.

Eu performo às vezes com o Antonio, o que me faz bem feliz. Sinto saudades das pessoas, do tempo em que éramos mais disponíveis. Tenho esperança no futuro. Depois de algum tempo de tristeza, do falecimento do meu pai em 2017, de me sentir atado à vida assalariada numa empresa patética vestida de museu – e quais empresas não seriam patéticas e vestidas como um museu? –, consegui uma bolsa de mestrado. Me dedico só a isso. Daí meu tempo disponível. Dedicado a escrever algo, a descobrir algo para além do meu próprio umbigo. Dedicado ao cuidado.

De resto, sei que conto pouco, ou que falo demais. Que a pretensão de ser as suas costas pode ser um disfarce meu para não dizer que escrevo isso tudo com um tanto de vaidade. A vaidade me assalta. Há vontade de ver e ser visto. Há vontade de ter relevância. Mas relevância são justamente as pegadas que só as nossas costas veem. São as penas quentes dos pássaros que enfeitam um céu para nós, nunca para eles mesmos. Então escrevo aqui como quem só pode intentar-se como um bom contribuidor para as memórias desse edifício que você é, mas nunca aferir-se como isso. Sou como olhos nas suas costas, vendo o que já foi. Mas contribuindo só com o pouco em que tenho o olhar, eu, alguém que fala ora coisas interessantes, ora coisas discordáveis. Um ser humano que lhe conta histórias um tanto triviais. E que o faz para roubar a história de um edifício do Jardim Botânico da gaveta das elites. Para somar com as outras histórias contadas pelas que me são pares aí. Escurecendo você, Lage. Tornando você um pouco como uma associação de moradores, ou melhor, dos passantes que aí não tem domicílio, conforto, que não lhe tem como uma paisagem próxima e, ainda assim, se fazem como seus hóspedes, ainda que temporários.

Nas gavetas, nos livros empoeirados, nos arquivos. Nos corações de quem nos cuidará. Ou no prestígio. Que tenhamos prestígio, mas só o que nos faça ter saúde.

Saúde aos nossos! Licença e gratidão aos velhos e velhas.

Um beijo, imenso. De quem tem ainda o quê continuar com você, nessa escola pretensiosa no meio da mata atlântica. E que seja para sempre essa escola pretensiosa no meio da mata atlântica, ousando mais do que sua geografia privilegiada, apesar dos ataques.

E um abraço, daqueles que me mostram desarmado, apesar de minhas palavras.

Sempre cabe dizer: obrigado.

Jandir Jr.