Rafael Amorim <amorimrafael.belasartes@gmail.com>

5 de fevereiro de 2019 19:49

Assunto:  uma espécie de rede

 

Boa noite, querides

[este e-mail é um convite]

estou enviando este e-mail ao grupo de jovens artistas, curadorxs, produtorxs, etc que considero meus pares nessa jornada da arte contemporânea como resposta às nossas urgências, mas mais que isso, gente: estou envio este e-mail para pessoas de quem realmente me sinto próximo e à vontade para discutir sobre trabalhos, processos e tudo o mais que muito provavelmente a gente já partilhou em algum momento. Seja nas salas de aula, no bandejão, no transporte público, em exposições, na mesa do bar.

Como a maioria de vocês sabe, esse ano finalmente defendo meu tcc, sob orientação da Dinah e minha pesquisa continua tratando de uma poética do contato com o outro, tendo o território urbano e o cotidiano como principal metodologia.

Não um Outro com “O” maiúsculo, um outro ideal… mas um outro em paridade com a gente, um outro que existe e responde às nossas questões, um outro em estado de constante troca e que também habita o lugar do eu.

Bem resumidamente e para que esse e-mail não fique maior que ele provavelmente já vai ficar, resolvi apresentar no tcc três disparos conceituais que desenvolvi durante a minha pesquisa para tentar propor quais linhas conectam meus trabalhos: Cidade-equívoco, Ancoragem emocional e Terreno baldio.

Muito disso tem a ver com o germe de mundo, pseudônimo que uso no instagram há pelo menos dois anos e que aparece para mim como afetação de uma das principais autoras que consulto para estruturar minha pesquisa: Suely Rolnik. Para ela, o germe de mundo seria essa negociação do corpo do sujeito com os afectos externos. Mas que para mim tem surgido como agente que opera modificações no mundo com elementos do próprio mundo, ou seja, o germe de mundo numa pretensiosa visão minha seria o sujeito como modificador da própria realidade: artistas, curadores, poetas…

Dito isso, vocês são os meus e os seus próprios germes de mundo, instauradores de mundos. E onde isso entra em minha pesquisa?

Quando comecei a delinear a bibliografia, não queria construir um tcc onde utilizaria somente psicanalistas, filósofos e antropólogos para justificar meu processo de arte.

Fui para textos de artistas falando sobre arte e quis ir mais além: como estou propondo uma poética de contato, de paridade e do outro, me vi cheio de desejo em construir uma experiência de bibliografia em rede, em que os meus pares falassem sobre meu trabalho, entender a importância de um artista em formação referenciando outrxs jovens artistas (essa nomenclatura que a gente ama usar) em seu trabalho de conclusão de curso.

O convite é também um desejo de que tudo o que a gente troca dentro ou fora da universidade, nos cafés e cervejas que tomamos, nos áudios que enviamos, seja material crítico sobre nossas próprias produções a engrossarem as redes que construímos. De modo que eu possa citar, por exemplo, BENJAMIN, Walter e BRAGA, Camilla na mesma página, MANHATTAN, Agrippina e CLARK, Lygia no mesmo capítulo.

Por ser uma tentativa de algo ainda pouco trabalhado no formato de tcc, minha pesquisa ser bastante auto referente e ainda não haver uma data para a defesa, deixo muito aberto os formatos e meios que esse material vá chegar até mim, caso aceitem o convite.

Penso como um possível prazo para ter o máximo de material, o fim de março. Talvez seja uma possibilidade e contaria com a disponibilidade de vocês.

Além disso, para auxiliar, estou enviando no anexo um recorte mais específico do meu portifólio como uma unidade de partida na pesquisa. Sei que nem todo mundo conhece os trabalhos como um todo, nem todos acompanharam o início desse processo lá em 2014, mas espero que com o portifólio seja possível disparar algum interesse no processo de escrita de vocês e que isso sirva de combustível para que possa contar com vocês no meu último ciclo dentro da graduação.

Deixei alguns trabalhos de fora e isso foi intencional, o que não significa que eles não aparecerão na versão final do tcc. A escolha de não trazer ao portifólio as performances “Entre pares” e “Primeiro trauma”, a série “O lugar das re-existências”, a “Arte pão com ovo” ou o video “Testamento” foi para que não se tornasse um arquivo com um milhão de slides. Sendo assim, caso alguém queira falar de algum desses trabalhos em específico, como fez a Camila Vieira na Revista Desvio, sinta-se à vontade para situá-los da maneira que melhor sentir desejo.

A intenção é que seja uma escrita prazerosa, sobretudo livre e como acharem melhor: pode vir em forma de artigo, resenha, crítica, apontamentos, e-mail, carta, textão de facebook, áudio de whatsapp, convite para tomar uma cerveja para gravarmos a conversa, achismos, sob o viés que melhor couber, usando artistas vivos ou mortos para referenciar, críticos, filósofos, historiadoras da arte, psicanalistas, professoras, poetas, cronistas, vendedores de bala ou nenhuma referência.

Espero que meio ao heavy metal que tem sido a vida de todo mundo nesse 2019 insano, consiga a colaboração do maior número de vocês. Caso não role, tudo bem, também. Entendo a correria que é estudar, trabalhar, caçar um trampo que pague bem, escrever editais, cuidar de criança, virar a noite, terminar trabalhos da faculdade, passar maior parte do dia se deslocando, sobrevivendo de um modo geral.

Pronto, chegou o fim do e-mail e fico feliz de verdade em ter conseguido dar conta de tudo o que precisava escrever, o que venho pensando há algumas semanas e já havia comentado com alguns de vocês.

Felizmente também já tive a oportunidade de trabalhar, expor, curar, produzir e estudar junto da maioria aqui, então agradeço antecipadamente a atenção e o carinho que sei que dedicarão me enviando algo ou, àquelxs que não puderem, só em ler o e-mail até o fim e aparecerem no dia da defesa (que ainda será decidido).

Um beijo e muita coisa boa pra gente.

Rafael Amorim:

estudante/pesquisador/germe de mundo/em fluxo
http://cargocollective.com/germedemundo