André Vargas <andrevargasantos@gmail.com> 24 de janeiro de 2019 13:29
Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>
Assunto: digerir
 

Digeri

Em verdade ingeri, mastiguei e engoli rapidamente tudo o que consegui ler de seu texto e, como num refluxo tardio, passei hoje por todo processo novamente. Talvez eu seja um boi e que, com meus dois estômagos, rumine cada palavra vasculhando sentidos e conexões, ou talvez eu só precise marcar na memória em garranchos o que leio, porque escrevo em garranchos feios, preciso da escritura bem cravada no tento para tentar outra vez escrever.

É sempre difícil escrever após ler, parece que não é mais necessário o empenho pela escrita que visitamos ao ler, esta tudo ali onde a escrita é espaço do não dito ou não escrito ou do impossível de se escrever e ler, mas está tudo ali nos espações entre palavras. Escrever novamente é repetir espaços entre palavras, no fundo endossamos o espaço abismal do não poder preencher completamente os sentidos com os sentidos que temos.

A leitura esgota tempo e palavra, porque tempo e palavra são a mesmíssima coisa e quando findamos uma leitura, findamos um tempo do mundo e iniciá-lo é restaurar as promessas e premissas, sempre não cumpridas, de que um novo mundo seja.

 

Antes de tudo, obrigado, amigo por me participar de sua vida!

 

Nunca te passei o texto do Nietzsche que disse que li sobre o conhecimento se dar no ventre e não na mente como se espera e indicam os neurocientistas, mas confesso que esse esquecimento é saudável em tudo nessa vida, veja bem, não o fiz de proposito, isso de esquecer, mas já que sucedeu dessa forma vamos acreditar que haja um propósito mesmo que não seja de propósito.

Tenho acreditado que precisamos incendiar toda a base de conhecimento do mundo para ver o que surge quatro, cinco, seis gerações após esse apocalipse epistêmico. Mas percebo, óbvio, que a força e a violência desse empreendimento não condizem com minhas formas pacifistas de empenho diplomático em vida e entendo as questões que nos trouxeram até aqui no que diz respeito a importância demasiada que a humanidade foi construindo à conservação e à tradição que quase se confundem, na versão mais corriqueira, com a ideia de cultura. Mas venho pensando que não precisa ser um empreendimento real, esse de destruir todas as bases do conhecimento humano, e nem sequer se trataria de uma experiência cientifica estrito senso, seria apenas a curiosidade operando suas ferramentas.

Curioso como deixamos termos como “curiosidade” de lado para nos colocar mais dominantes perante o mundo, para nos instaurar como humanos e poder manipular tudo e todos. No fundo de tudo isso somos somente seres curiosos que não acreditam mais na curiosidade e querem dizer-se sérios e espertos de suas vontades; somos crianças a abrir brinquedos descobrindo peças e mecânicas que nos iludem, mas fingimos ser adultos que entendem os truques do brinquedo. E mais, curiosa é toda a natureza, não somos diferentes, boa parte das ações no mundo se dão por curiosidade, deus é uma curiosidade, e eu sou curioso com o que surgiria na cultura depois de um colapso de esquecimento geral. Mas agora trato de um processo pessoal, o que surgiria de mim se eu conseguisse empreender o esquecimento como método? Esquecer e não mais digerir tudo isso que pensei conhecer, até aqui me lembro de Descartes em Meditações Metafísicas e um turbilhão de memórias do curso de filosofia, mas e se eu conseguisse esquecer disso também? O que surgiria?

Como você bem disse, amigo, Utopias movem e geram energia vital, mas nesse meu desvario reside ainda uma ideia fundamental àqueles que, como eu, passaram pela transição dos anos 1999/2000; a ideia de que é preciso acreditar que o mundo acaba e vai acabar sempre, e que todas as profecias estavam certas, para que sejamos criadores de um novo que não precisa, de forma alguma, ser diferente. Quando criamos voz, escrita, marca, entre outras tantas formas de contato humano, não só criamos um mundo novo como matamos muitos outros. O grego arcaico é uma língua morta, o chorinho é uma musica morta e, mesmo quando falamos grego ou tocamos o chorinho, ou estamos fazendo um novo, ou estamos restaurando uma múmia. Alguns dirão que as coisas se modificam, eu até acredito na mudança, no fluxo, mas, para mim, a cada pequenina mudança existe a morte, assim como a vida, mas precisamos dar maior valor à morte das nossas produções, porque a vida anda muito exaltada e a busca por imortalidade nos faz sintéticos em todos os sentidos.

Pode parecer que estou me distanciando das coisas que você assuntou em seu e-mail, mas escrevo isso para dizer que, diferente de ti, acredito em vanguardas, não aquelas vanguardas europeias ou europeizadas de escolas, tipos, normas e etc., mas acredito que haja vanguarda em todo ato, vanguarda vulgarizada mesmo e pulverizada em todo ente que se apresente no mundo: pedras, vegetais, animais…, já que interpreto que todo ato aponta a morte de outro em seu nascimento, todo ser cria e é vanguarda. Por isso é difícil escrever depois de ler. A condição primeira é que meu texto mate o seu de alguma forma e contra isso possuímos barreiras éticas que nos impelem a travar, mas não é só de compaixão que vive um obstáculo à escrita pós-leitura. Matar o seu texto é saber que o meu poderá ser morto também e ninguém deseja a morte, não do jeito que precisamos desejar.

Acredito que esse possa ser um bom caminho para abrir-se para uma escrita que não tenha intenções de universalidade, começar por desacreditá-la daquilo que a fundamenta: a permanência, a perenidade, a conserva, ou seja, começar por acreditar e desejar que a escrita morra e que não gere tradição.

Obviamente guardo-me a inocência e a leviandade com que trato esses assuntos, imaginando  obvio de trabalhos ostensivos que possam ter ilustrado-os mais profundamente, mas o que está mais perto muitas vezes é mais difícil de se ver. Estou escrevendo sobre o perto, tão perto que se confunde comigo. E quando te faço aquelas perguntas em nossas conversas andantes é porque as faço a mim, tão perto que se confunde comigo. Também não sei bem para quem, para que, para o que escrevo. E sinto as angustias de nem sempre ser sentido ou fazer sentido em minhas escritas. Sinto na diligencia das minhas palavras prediletas, por vezes, um descompasso com a minha expectativa de leitura e muito disso se resume, agora pensando a partir do que eu mesmo conjecturei, porque escrevo em língua morta. Talvez a poesia seja em si desde o início uma cerimônia honrosa e delicada de mumificação da escrita. É dalí para o sarcófago. E por isso o desconforto que ela gera. No medo de que essa língua morta se levante e que de suas ataduras horrendas surja um urro melancólico de prolixidade atormenta os vivos. mas talvez não, talvez a poesia seja também viva e morta, a depender do fingidor ser mais ou menos fingido, mas as minhas, ah, essas tem morrido, inclusive em mim, antes de sair, como verrugas dentro do ouvido ou espinhas internas na ponta de um nariz pronunciado como o meu. Preciso fingir mais.

De fato é um tremendo desafio, amigo e, na verdade percebo que você sempre se coloca nesse papel, e se dá bem, de confrontar as normas cristalizadas, cujas chagas estão expostas na fratura social em que vivemos. Sabe que torço para que você tenha ainda mais esse desafio ultrapassado com vivacidade e acredito muito na sua escrita, até aonde convém acreditar em escrita, ou seja, nos espações entre as palavras. Encontrar uma espécie de equilíbrio entre os seus desejos com a escrita acadêmica parece ser uma tarefa para se deixar levar pela curiosidade, destruindo o brinquedo para que ele morra e em seu lugar você consiga fazer outro, não com as mesmas peças, mas enxertando pedaços de si que sei que farão do brinquedo algo melhor já que perderá a mecânica e ganhará em vida.

E sobre o Tretiakov e sua factografia, um estrangeiro só deixa de ser estrangeiro quando não tem passagem de volta. E você, meu caro amigo Jandir, não volta mais, você é o próprio campo em que corre o chamado à sua intelectualidade. Não precisa temer que não consigas mudar com esse mestrado, enquanto vivos somos só a mudança para a morte e você só está no mestrado porque já mudou. Só não endureça em demasia a sua língua, deixe-a mole para que ela não corte suas delícias sem saboreá-las (pensar na digestão em demasia é esquecer do gosto e lembrar de azias) e não deixe que certa ânsia poética te transforme num embalsamador de língua morta, procure no que a escrita é cura, portanto no que ela é mortal, porque é no que ela é mortal que ela esta viva, o imortal está morto. Perceba, escrevo “ao amigo Jandir”, mas estou dando esses conselhos para mim, porque está tão perto que se confunde comigo.

Podemos continuar conversando se você quiser, porque provavelmente deixei muitas questões no vácuo…

 

 

 

 

e isso nem de longe parece um final bonito de e-mail.

 

Abraços,

André Vargas