Mrn Przzz

Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>

Assunto: Mensagem à Jandir

 

Janby,

Os dias de tensão põem à prova uma pesquisa ainda jovem, mas à medida que as semanas passam (e mais parecem meses) as vontades de se manter são resgatadas de onde se esconderam.

O futuro é incerto, talvez como se sentia o perigo entre 64 e 68. Escrevo do Instituto Tomie Ohtake, da exposição “AI-5 50 anos – ainda não terminou de acabar”. Como buscar  a garantia deste “fim” necessário, como sugere o título?

Vi Barrio, lembrei de você. Escrevi esta mensagem no verso de um artigo sobre História da Fotografia Contemporânea. Penso numa arte que documenta o que está para ser apagado, seja pela fotografia, texto, rastro (como desenho, como poça, linha ou escrita). Penso em você e no processofólio. Acontece que, nesta era em que estamos constantemente em vigilância, a fotografia (mesmo a das nossas próprias máquinas) já não é a mesma dos anos 70. Sempre houve a edição, não é bem isso. É a permanente vistoria – a vigilância de captura de imagem- o dado novo.

Você saiu há muito das grandes redes sociais. Agora, eu e um grupo de amigos consideramos migrar do Telegram para o Signal levando em conta qual tem um código mais seguro de criptografia (pensamos nisso pouco depois de você, adiantado, que já saiu até desse reconditinho). Será que está sempre um passo a frente?

Até mesmo nas documentações dos microgestos dentro da rotina de mediador você anteviu um capítulo de um livro que eu estava estudando (agora já não sei, mas acho que era sobre o teor não utópico da contemporaneidade).

Somos diferentes – e cabe, nos tempos de consciência social pós-colonial, ressaltar essas diferenças. Não tenho uma rotina de trabalho compulsório, tenho privilégios. Esta não é uma carta tipo “mea-culpa”, mas nos analiso. Faço isso porque quero me ver refletida ao teu lado. Com nossas subversões e negociações em territórios diferentes e que, em algum ponto, devem se cruzar. Mesmo com a distância, você permanece uma referência de quem sou enquanto artista do meu tempo. Não sei se me levo até você, mas te trago em mim.

Termino de escrever o TCC esse mês. O título é “entreeuentreoutro – proposta em arte de negociação e subversões de limites e territórios, em especial no entrelaçamento das esferas rua e casa”. Essa semana, depois dos desgraçados eventos, comecei a considerar a retirada do termo negociação… contudo, vi o problema a tempo. Ceder à ideia de que estou num lugar para o além do aceitável, para além do limite onde me propus estar, é o primeiro passo para desacreditar o que está dado em toda existência (e o que eles querem desnaturalizar).

Acredito que, se já ficou claro que não se trata do que conta na constituição o que é acordado nas camadas mais influentes do poder (nestes meses em que o tempo se comprime e minutos, nas horas certas, tem consequências materiais de anos), devemos assumir esta vantagem de explorar o que está pra além do papel. Experimentar novas configurações nas brechas das hierarquias materiais que visem a repartição do comum; que exercitem nossa marginalidade também como estratégia para ir além de alguns territórios; que valorizemos o que Bhabha chama de “ex-cêntrico”, o que extrapola os binarismos conflitantes (como, por exemplo, a ideia de norma e subversão como antagônicos).

Eles nos prometem a morte, e não tem como discutir a impossibilidade de alguns dribles. É claro que são tempos em que, como a Bianca Madruga diria, é meio dia: e o sol à pino trabalha as sombras com muito mais solidez, com contornos duros mesmo, e os lugares onde a luz bate intensa estouram como nas fotos superexpostas.

Contudo, é preciso acreditar no material, no recurso (não exatamente numa resistência qualquer), na lona contra o sol ou em seguir em frente com a cara tapada. Mesmo que de forma dissimulada, que nos adaptemos, não estamos nos moldando conforme o que desejam. Porque não somos especialmente subversivos: não mais do que todos os que estão vivos e produzem e quebram padrões a todo tempo.

Em “AI-5″, algo ficou muito contornado para mim: dos artistas celebrados dos tempos de ditadura, a maioria eram homens brancos já de famílias abastadas. Ainda havia algumas mulheres, uma ou duas, mas não podemos dizer que o quadro mudou muito, menos então quando se considera a quantidades de negras  (e negros) celebradas no nosso circuito, ou na arte contemporânea no geral (na academia, nas exposições, nos livros,
enfim…).

Vale que continuemos a documentar nossos esforços, ainda mais se pudermos revidar o olhar que os dispositivos de captura instituídos nos direcionam. Vale que mostremos uma genuinidade que seja ainda mais estratégica, mas sempre cuidando para nos expor no nosso couro forte, sem nos vulnerabilizar mais. Vale acima de tudo que nos consideremos juntos, mesmo distantes e apartados, mesmo que não possamos garantir uns aos outros tudo o que eles também prometeram garantir e não mantiveram. Não são as estéticas de resistência que conquistarão a nossa sobrevivência – não são o de quê depende nossa afetividade, o alimento emocional, nossa completude. Não é embaralhando tudo também que vamos criar da confusão respostas efetivas na urgência deste momento.

O que vale é acreditar que estamos reapresentando um valor ignorado aos olhos de quem escolheu eleger fascistas para ignorar a realidade, para se abster de uma “verdade” que não seja única, que não seja mono-orientada, centralizada, que desejam a anulação de qualquer desvio sem entender que o somos todos fruto também do desvio. Que o movimento é inerente, que não existe nada em estado de inércia ou numa situação
“física ideal” abstrata, que o rumo que as coisas toma se perverte e que isso existirá independente do cansaço, pois este mesmo desvio não depende de um indivíduo sequer. Ele é uma força presente em todos – e que precisa ser aceita , trabalhada, orientada e, por vezes, também celebrada!

O que eles consideram “desperdício” (em relação ao lucro em todas as suas modalidades) é algo que mantém a saúde comum – e então, com o tempo (dizem que ele se encarrega de tudo) estaremos vivos para além de apresentar esse valor, ajudar também na re-matização das sombras e luzes, para se conciliarem no diálogo constante que toda diferença merece.

Não sejamos oposição ferrenha para queimarmos nosso pouco poder. Sejamos oposição que negocia interna e externamente. Negociadores de nossas existência, documentemos nossas existências desviantes e que a dissimulação seja um recurso que aprendamos como qualquer outro. E sigamos numa curva que é comum à existência, e não mais acentuada por eles. Sigamos na nossa curva, porque a vida existe sobre um chão granulado, matérico, e que, apesar de aparentar retilineidade, não é plana vista de longe.

Mrn Przzz