Deixei as últimas pedras que restavam comigo do lado de fora de casa.

(Em 2013 escrevi:

Pique-Pedra

Número de participantes: Indeterminável

Duração: Indeterminável

Regra: Deslocar pedras

Obs.:

Pique-Pedra teve início quando deslocada a primeira pedra (semântica e/ou fisicamente) e acontece até hoje, sem previsão de término. Com isso, o número de participantes e seus impactos no jogo também não puderam ser aferidos com precisão.

-Ao que tudo indica, este jogo ocorre desde tempos inenarráveis. Logo, quem o nomeia Pique-Pedra não é seu criador, apenas se inscreve como jogador ao realizar este ato.

-Única regra apreendida, basilar, o “Deslocar pedras”.

___________

14 de dezembro de 2014

Jandir Jr. foi um dos artistas participantes dos Diálogos Expandidos/Ocupação. Sua ação “Pique-pedra” foi desdobrada em texto por Pollyana Quintella. Vejam!

>>>>>>>>>>>>>>

Trata-se de um exercício irônico conceber um texto crítico a respeito de Pique-Pedra. Isto porque as ações do Jandir, e especificamente essa, me soam quase sempre uma espécie de resistência ao que possa enquadrar-se num campo confortável de crítica e arte. Pique-Pedra explica-se. Convoca sua autonomia, sobretudo. E faz isso segundo a frágil rigidez de regras extensíveis e indeterminadas, a não ser pelo material em questão: a pedra.

A questão é que Jandir quer se eximir da criação do jogo entendendo que sua ação foi simplesmente desvelá-lo a nós. O que faz é dizer-nos: estão todos a jogar. Enquanto constroem, enquanto produzem joias, estão todos a jogar. E o faz trazendo a amplidão dessa lógica à um exemplo de literalidade: recolhe algumas pedras portuguesas, já deslocáveis em nome, e as amontoa sobre a mesa, anexando um texto com as instruções. Tudo isso se faz numa dinâmica irônica que forja jogadores inescapáveis de uma lógica cotidiana também lúdica.

Em outra intervenção na mesma exposição, desta vez anônima e no trabalho do Nico Las, Pense, Jandir escreveu “Pisque”. A ação de piscar, involuntária e cotidiana, reverte a autoridade do imperativo. Ou, por outro lado, a autoridade imperativa se faz confortável por ser inescapavelmente cumprida. Pisque brinca com a relação de poder. Seja como for, a operação parece ser a de desnudamento. É em Pique-Pedra, e também em Pisque, que sua ação é um rearranjo do real. Um rearranjo enviesado, transversal, itálico. Um rearranjo que encontra novas e possíveis lógicas perturbantes, que opera por dentro.

Não se trata de um arranjo surreal ou irreal. Não posso negar a coerência de Pique-Pedra, como não nego a do Pique-esconde ou de qualquer dinâmica lúdica. Os perseguidos ou fugitivos também brincam de pique-esconde assim como os construtores (ou qualquer deslocador de pedras, segundo a regra) brinca de pique-pedra. O ludus faz-se como uma nova camada de sentido depositada por cima da ação. Esse sentido, sobretudo, reativa uma ação dormente, reproduzível, desnuda-a porque faz ver. Pisque me faz pensar no meu piscar, me lembra que pisco, me faz piscar repetidas vezes. Pique-pedra me faz ver jogadores em toda parte. Tanto uma ação quanto a outra operam no campo do inegável. Como diria Huizinga, a respeito do Homo Ludens, “A existência do jogo é inegável. É possível negar, se se quiser, quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo.”

Pollyana Quintella

 

 

—————-

 

image
image
image

Em 1970, o crítico de arte Frederico Morais abriu sua exposição A Nova Crítica, que buscava um outro modo que não o da crítica textual para se deter às exposições de Cildo Meireles, Thereza Simões e Guilherme Vaz, realizadas, assim como a sua, naquele ano na Petite Galerie, no Rio de Janeiro. É neste gesto seminal de Frederico que encontro estímulo ecoante para minha proposta de ocupação aqui, que não busca desenvolver uma crítica ao EspaçoVórtice num molde textual e literal, mas que deseja o agenciamento dos envolvidos nisso (ocupante, visitantes, instituição) na vivência de um comentário crítico aberto e intermitente deste espaço expositivo, em suas demandas sociais.

A proposta de ocupação do Espaço Vórtice COMUNICADO: É PERMITIDO APROPRIAR, MANIPULAR E INSERIR PEDRAS NESTE ESPAÇO. GRATO, JANDIR JR. surgiu do texto Pique-pedra (presente no Anexo). Neste texto, descrevo um jogo de duração estendida e indefinível, que ocorre sempre que uma pedra é deslocada semântica ou fisicamente, o que torna também impreciso o número de pessoas que participaram do jogo, tendo em vista que quase todos nós já fizemos esse tipo de deslocamento em algum momento de nossas vidas.

Explanado isso, pretendo propiciar uma ocupação em que, desde o dia de abertura até o seu término, eu transporte as pedras que ficam nos arredores do prédio da Reitoria para dentro da galeria e vice-versa. Nisto, além das qualidades formais e estéticas desta ação, há a delineação de dois vetores de força: um interior, Espaço Vórtice, certo lugar de visibilidade e função; e outro exterior, que não é a galeria, mas que a circunda e contem o incontido por ela: as pedras, índices da falta de unidade. Esses vetores de força não se anulam, mas, ao atuar, sustentam um ao outro em suas respectivas tarefas (a função do interior, espaço expositivo, e o despropósito do que lhe é exterior) assim como engrenagens de um relógio. Logo, este transporte de pedras à galeria e vice-versa que pretendo realizar atribui outras rotações e interconexões às engrenagens, no devir de um relógio outro, maquinação necessária à construção de um comentário crítico aqui.

Finalizando a maquinação, no espaço interno do Espaço Vórtice (na parede onde se inserem os textos das exposições), pretendo uma cópia do texto Pique-pedra escrita à mão. E no espaço externo, dedicado ao cartaz da exposição, um cartaz com apenas o título desta ocupação (COMUNICADO: É PERMITIDO APROPRIAR, MANIPULAR E INSERIR PEDRAS NESTE ESPAÇO. GRATO, JANDIR JR.), no mesmo formato que a da capa deste projeto, dialogando assim com os espaços comerciais e institucionais que utilizam de missivas estética e funcionalmente semelhantes em seu cotidiano corriqueiro.

Agradecer num comunicado à porta de um espaço expositivo por permitir a outros participarem de um jogo que, em verdade, já participam, é a exaltação de um absurdo, que trago aqui tão somente com o intuito de abrir brechas para discussões sobre o que separa e une as produções humanas. E me interessa o mover discussões a partir do mover pedras (no ato físico de transportá-las e na permissa a outros via cartaz) justamente por criar um ambiente – pelo jogo – onde as diferenças entre estratos sociais podem ser reposicionadas; onde política, estética, ética e regimes de ordenação e entendimento vêm a tona e adquirem plasticidade, ou seja, são passíveis de reordenação; onde, enfim, meu lugar enquanto propositor e o lugar do outro enquanto participador são pontos de problematização, pois aí estamos todos em disputa ou ludicidade. Em jogo, no fim das contas.

—————-

PODE PARECER UMA PEDRA. PARA O RIO É O SÍMBOLO DE UMA TRANSFORMAÇÃO. FRAGMENTO DE ASFALTO RETIRADO DA AVENIDA RIO BRANCO PARA IMPLANTAÇÃO DO VLT CARIOCA

Vitrine, impressão sobre papel e fragmento de asfalto retirado da Avenida Rio Branco para implantação do VLT Carioca.
Museu Nacional de Belas Artes, Cinelândia
2015

PODE PARECER UMA PEDRA. PARA O RIO É O SÍMBOLO DE UMA TRANSFORMAÇÃO. FRAGMENTO DE ASFALTO RETIRADO DA AVENIDA RIO BRANCO PARA IMPLANTAÇÃO DO VLT CARIOCA foi a reprodução livre da vitrine instalada pela Prefeitura do Rio de Janeiro na Praça Cinelândia, região onde também se encontra o Museu Nacional de Belas Artes e que passa por mudanças urbanísticas por conta das obras para implantação do VLT – Veículo Leve sobre Trilhos – que cruzará parte do Centro da cidade e de sua região portuária.

http://cargocollective.com/museuemprocesso/Jandir-Jr

)

—————-

Rafa Lima <RafaLima831@hotmail.com>     8 de novembro de 2017 10:41

Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>

É difícil escrever sobre o trabalho de um colega, ainda mais no contexto de uma monografia. Fiz o possível, se quiser que eu mude alguma coisa é só falar cara… Talvez, depois de mostrar pra Gabi, ela queira que eu mude algo também, eu deixo vc saber se isso acontecer.

Alguns trabalhos operam mesmo uma certa magia. Já bem depois de ter deixado a proteção dos espaços expositivos onde os conhecemos, eles teimam em reaparecer, lampejando entre pensamentos comuns e repetindo no dia a dia o encanto e a dúvida que tivemos ao vê-los pela primeira vez. Há algo desse poder em Pique-Pedra, trabalho/jogo que conheci em 2015, quando foi apresentado por Jandir Júnior no espaço Vórtice, na escola de belas artes. É uma tarefa difícil caracterizar precisamente a criação do artista aqui e desde já me abstenho dessa tarefa. No lugar disso levanto algumas opções, mais como relatos descritivos da minha experiência com o trabalho do que como desejo de concluir exatamente as sutilezas das manobras que o formaram.

A primeira coisa que encontrei quando vi Pique Pedra foi esse cartaz fixado na parte externa da galeira. Nele havia um convite com os seguintes dizeres: “COMUNICADO: É PERMITIDO APROPRIAR, MANIPULAR E INSERIR PEDRAS NESTE ESPAÇO. GRATO, JANDIR JR.” Essa permissão localiza Pique pedra junto a trabalhos participativos, onde o que mais importa é a atuação coletiva do público, dentro desse espaço especial, onde as regras e as relações da vida são normalmente substituídas por uma premissa outra. Nesse caso, deslocar pedras.

Do lado de dentro, entretanto, havia um outro cartaz, talvez esse sim o trabalho. Ele nos apresentava, através das suas regras e da sua história, a ficção de um jogo imemorial, aberto, onde se inscreviam todos que alguma vez já houvessem deslocado alguma pedra, física ou semanticamente. O cartaz destacava ainda que sendo um jogo fundado no deslocar da primeira pedra, o artista aqui se inscrevia não como criador do jogo, mas apenas como um jogador que inicia nova partida na história desse jogo – já tão bem consolidada pelo movimento das pedras na literatura, nas construções grandes e pequenas, na arte e claro, no cotidiano – em todas essas pedras cujo movimento não notamos seja por ignorância seja por escolha.

Vejo um espelhamento no conteúdo desses cartazes e na disposição deles no espaço. O cartaz de fora, por ser um convite para atuar na galeria, me faz pensar justamente no que podia acontecer do lado de dentro dela, no tempo que eu ficasse ali me “apropriando, manipulando e inserindo” pedras naquele espaço. Dentro porém, o outro cartaz adverte justamente como aquele jogo pertence a um todo maior, responsável não só pelas pedras que o artista já havia disposto ali no chão, para jogarmos, mas também aos jogos dos arquitetos, engenheiros, técnicos de construção civil e pedreiros que ergueram aquele espaço, aquele prédio e as rodovias que o ligavam a minha casa distante. Minha própria casaera parte do jogo, e minha avó, que morava nela a tantos anos, sem nunca ter feito faculdade ou curso algum, com seu corpo cansado do tempo, jogava em pé de igualdade com esses outros jogadores, sempre que colocava pedras circulando suas plantas do quintal.

Pode ser uma parte do poder de qualquer jogo, mas quero delinear no Pique Pedra essa vocação de colocar atividades de hierarquias tão distintas em um mesmo plano. Talvez, não apenas para questionarmos sem receios essas atividades mais “sérias” e “úteis”, como para olharmos com mais atenção as pedras que chutamos sem ver quando caminhamos com pressa de um lugar a outro. Naquele dia de visita na galeria me lembro que fiquei pouco interessado pelas pedras que o Jandir tinha colocado a nossa disposição, brincando com elaspor pouco tempo antes de abandoná-las. Não sabia então que o jogo já havia entrado em mim, e que não poderia esquecê-lo. Ele reaparece na minha mente sempre que troco uma pedra de lugar, por um motivo qualquer ou quando, numa conversa casual, alguém usa essa palavra e se coloca no jogo sem saber, me fazendo sorrir.

Acho que é esse o tipo de brincadeira que Benjamin diz dormir no fundo do cotidiano. A repetição do Pique pedra é essa reapresentação dele que não consigo e não quero evitar sempre que meu corpo topa com uma pedra na rua ou minha mente topa com uma pedra no pensamento. Seu encanto está na permissão que me dá de comparar a pedrinha que chuto com as pontes, os prédios e as obras que racham meu caminho. Pelo jogo posso desafiar a grandiosidade dessas jogadas com as minhas, que são menos planejadas, mas bem mais sutis.

Seu encanto está também no riso estranho que me escapa quando alguém fala a palavra pedra. Foi em uma aula de escultura em pedra que nomeei pela primeira vez meu desencanto, foi também nessa aula que o fiz tema de alguns trabalhos. As pedras, devido as características da sua matéria e a um simbolismo meio óbvio, me faziam pensar nas dificuldades que eu atravessava naquele ano. Abracei o óbvio nesse caso e reforcei nas pedras, através desses trabalhos, o símbolo dos meus desencantos. Elas se constituíram assim como carga negativa, mas, ainda assim, sorrio quando lembro do Pique pedra. Aqui também, pensando o encanto e o jogo, falei das pedras de Penone e de pedras de dominó, além de ter chamado minha professora de escultura em pedra para orientar essa caminhada. Talvez esse jogo do Jandir tenha profanado, sem eu saber, esse simbolismo das pedras a que eu já havia me apegado. Criou nelas um novo sabor, menos amargo. Nisso reside, ao menos para mim, uma grande magia.

Jandir, brigado!

Um abração.