Robnei chegou a me contar um tanto sobre seus projetos felizes em Boa Esperança antes que eu lhe dissesse do que tem me atormentado: que não tenho conseguido me sentir em arte. E ele me perguntou por que, no que quase lhe disse sobre o problema que criei a mim mesmo, quando Rob mesmo o deduziu ao dizer que percebia meu esforço em me rarefazer ao não produzir, em buscar um não-trabalho. Entramos num exemplo: no shopping-chão, quando dispus coisas minhas na rua e estive disponível a trocas com outras pessoas, ele não me via sendo radical, já que não disponibilizava aquilo sem reservas. O contei então do rumo que dei a esse trabalho em sua última versão – a que me satisfez -, quando apenas montava a estrutura de shopping-chão com meus objetos numa calçada e os deixava ali, disponíveis ao desaparecimento que iria lhes ocorrer inevitavelmente. Contudo, esse já não é o problema que me atormenta, o da coesão do gesto artístico com o da minha opção pela abstenção, de modo que disse a Robnei, quando me perguntou do que eu busco me abster quando falo de abster-me, que me percebo recusando o próprio gesto artístico. Ele então hesitou com os olhos e com os braços e, ponderando que lembrava de Marcel Duchamp e de Tehching Hsieh como artistas que deixaram de produzir obras e buscaram um afastamento do circuito artístico, falou, ainda assim, que eu mesmo não deveria deixar de compartilhar com outras pessoas e buscar interlocução com quem é tão ou mais comprometido com arte que eu para conversar sobre esse abster-se que me seduz e atormenta. Mas não pude o ouvir mais que isso, já que meu ponto havia chegado. O agradeci, saí do ônibus, e ao chegar no portão de casa, encontrei um pequeno ramo enfiado no buraco de sua fechadura. Fiquei encantado por aquele ato pequeno, de alguém que provavelmente não saberei quem é. Observei por alguns segundos sua forma, sua cor e textura, grato por quem cravou aquilo em minha porta, ação que me mostrou o limite tênue em que uma potencial obra de arte se fez, me pondo em dúvida se eu seria capaz de evitar o gesto artístico como disse, ou se só busquei me alienar dele, ou se busco me alienar dele como um outro gesto esse do alienar-se, tão em arte quanto. Em dúvida, pus o raminho de volta na fechadura ao entrar.