“Em 2013, queria encontrar uma horizontalidade essencial em todas as relações que eu comporia a partir de então. Penso que mirava de modo pueril este desejo à época, de forma que lancei-me a buscar isso – crendo-o de uma concretude monolítica – na atividade de educador que exercia no Museu de Arte do Rio. Por isso, deixei de organizar percursos pré-definidos de visitas às exposições em favor de tentar buscar junto aos grupos que acompanhava o desenho do que iríamos fazer ali, caminhando por uma exposição juntos. E é claro que desandei nesta empreitada nos primeiros meses de experiências. Não só acreditei que esse tipo de amálgama entre nós se daria de forma espontânea, sem que eu precisasse intervir como uma figura destacada dos que ali estavam, como cheguei mesmo a crer que as regras museais mais básicas precisariam ser discutidas e reavaliadas a todo o momento, em cada visita, como se um novo gênese devesse acontecer a cada uma hora e meia de novos encontros com novos grupos. O que gerou um exílio: ainda que de corpo presente junto a eles, muitas vezes não consegui me manifestar, paralizado pela grande questão que criei a mim mesmo, de modo que as mãos iam invasivas em direção as obras mais sensíveis, os corpos corriam e demandavam sobrecarga de trabalho aos que monitoravam as galerias e, em tudo isso, os grupos não se conformavam grupos. Em minha vontade de estar presente sem estar presente junto aos visitantes, acabei pendendo a balança e fortalecendo minha inexpressividade e impermanência junto aos outros em detrimento de participar na co-gestão que gostaria de ver emergir comigo.

Já neste primeiro domingo de 2017, reconheço que gostaria destes grupos que não quis conduzir neste museu adentrando, na verdade, seus corredores administrativos. Nem tanto deixar de definir os percursos, numa contenção que se direciona a mim ou ao museu – como se nossa abstenção fosse suficiente para constituir uma senda à população -, mas viabilizar e fomentar a intervenção popular no MAR, em seus educadores e nos artistas que aqui expõem, como se pedisse aos visitantes que não hesitassem em desenvolver suas vontades construtivas para além das molduras artísticas e institucionais, ou seja, que agissem também nas bordas que estruturam como estar neste museu.

Costumo iniciar minhas visitas atualmente perguntando o que iremos fazer juntos. Esta questão, que cria visível estranheza ao grupo e, posteriormente, percursos de visitas os mais diversos possíveis, solucionou meu mal estar com relação a prerrogativa engessada de que deveria ser eu a definir por onde todos iríamos. Mas, neste exercício, percebi que certos aspectos de uma participação popular não davam conta de serem construídos neste contato de uma hora e meia com algumas pessoas. Ainda existe em potencial o desejo de mais público na privacidade do museu; de que os critérios e estruturas museais estejam ainda mais amalgamados com preocupações como a que educadores aqui carregam, de como fazer com que as pessoas que os acompanham falem por si, definindo junto a eles a substância que comporá esta passagem coletiva no MAR. E, se educadores tomam isso como uma responsabilidade a ser desenvolvida, se desejam criar outras possibilidades de participação popular neste museu, isso implica que atuem, junto aos visitantes que somarem a esta demanda, em camadas do MAR para além da gerência de educação. E isso diz respeito a instâncias díspares: desde as rotinas usuais da comunicação do museu até mesmo a casa dos artistas que aqui expõem.

Hoje está sendo realizada a atividade A você, artista na exposição individual de Alexandre Sequeira, da qual estou cuidando agora. A você, artista, que convida os visitantes a escreverem cartas para os artistas expostos, foi desenvolvida pelo grupo de trabalho Eu, a cidade e o outro – do qual participo – durante um momento de crescente interesse em especular a criação de novas bases democráticas no Museu de Arte do Rio. Afirmo isso ao relembrar que A você, artista foi concebida quase que junto a atividade Canal de comunicação, que surgiram dentro de pulsantes debates em nossas reuniões semanais sobre como criar um fórum do museu, onde seus públicos teriam um espaço para propor outras formas deste existir e funcionar.

Nisto, quisemos realizar o Canal de comunicação como um fórum mesmo, com cadeiras dispostas num círculo e ocupadas por quem desejasse discutir o museu por longo período, gerando, ao final, uma ata da reunião, a ser encaminhada para todas as equipes do MAR. Contudo, a urgência da rotina fez com que adotássemos outro formato, mais enxuto. Observamos que, à época em que desenvolvíamos a atividade, uma pesquisa de opinião era realizada com o público na saída do museu por pessoas contratadas temporariamente, o que nos estimulou a fazer o Canal de comunicação, desta primeira vez, como uma pesquisa similar. Em dezembro de 2016, nos posicionamos com pranchetas na saída do pavilhão de exposições e nos dispussemos a perguntar aos visitantes desde tópicos usuais sobre o grau de satisfação para com o museu até questões que fomentavam um debate crítico mais profundo entre audiência e aparelho cultural. Em resumo, fizemos uma pesquisa que buscou não só aferir satisfação, mas também tornar confusa a relação usual de pergunta e resposta, estimular proposições ao museu e registrá-las pela escrita.

Agora, em retorno a este oito de janeiro, vejo pessoas diversas sentadas nas mesas da exposição Meu mundo teu, redigindo por seus próprios punhos longas cartas endereçadas ao Alexandre Sequeira. O contato das educadoras Priscilla e Camila, componentes do grupo de trabalho Eu, a cidade e o outro, e que conduzem hoje a atividade com o público, é caloroso mas não se demanda a uma aproximação constante; quando iniciam as cartas, o diálogo delas se estanca, e quando os que redigem terminam sua escrita, lacrando-a num envelope com seus endereços de remetente escritos à mão, o contato é protocolar, ainda que anuncie o desdobramento afetuosamente aguardado: em breve, a resposta do artista chegará a sua casa. Alexandre se dispôs a responder todas as cartas que foram escritas nesta atividade e que, posteriormente, iremos remeter ao seu endereço. E por mais que possamos pensar nesta ação somente pelo contato de palavras carinhosas entre o artista e seu público, ela é a criação duma contracorrente na orientação exposição-espectador, onde pessoas – já não mais somente audiência – informam a um artista, posto à vista por seus objetos expostos, uma construção semântica sobre sua prática que não parte da curadoria ou do ensimesmar dele pensando por si sua obra, mas do insondável que há no olhar de quem o olha.

Este aceite generoso de Alexandre Sequeira em responder as cartas – tão coerente com sua prática artística – é um avanço em relação à última vez em que realizamos a atividade A você, artista, onde convidamos os visitantes a escreverem cartas para artistas expostos, mas não vimos condições de endereçá-las, seja porque eram falecidos ou porque eram inacessíveis seus endereços. Desejamos também endereçar, desta vez ao museu, os registros do que fizemos com o Canal de comunicação, bem como realizar muitas outras vezes esta e outras atividades que abram uma mediação do público ao museu, e não só do museu ao público. Talvez, assim como não sabemos o endereço de alguns artistas, o endereço do museu seja invisível para boa parte dos que visitam suas galerias, ou mesmo seja pouco o endereço, mesmo pros que conhecem os canais de comunicação disponibilizados publicamente pelo MAR. Creio que atuamos então construindo como que caixas postais, quer seja dentro das casas dos que aqui se mostram, quer seja dentro de outros lugares neste Museu de Arte do Rio. Penso nisso, e não sinto que deveria encerrar minhas palavras aqui. Sequer a atividade de hoje acabou; ainda enviaremos as cartas pelos correios.”