hoje, há uma hora atrás, ou mais que isso, andava pelo campo de santana quando decidi entrar por umas ruas desertas no mercado saara para chegar até meu ponto de ônibus. pensava se haveria risco de assalto ao fazer aquilo, quando uma viatura policial parou ao meu lado. um fuzil saiu antes do homem que o portava, seguida de uma sentença – encosta na parede. encostei. a revista foi diferente das outras vezes em que isso aconteceu comigo recentemente. nessa, o armamento era mais pesado, as mãos invadiram meus bolsos e bolsa com mais pressa, as perguntas eram repetidas, para tentar descobrir se eu vacilaria ao responde-las novamente. disse que estava na região por trabalho. – onde você trabalha? – no museu de arte do rio. – você tem alguma documentação que comprove que você trabalha lá? surpresa. disse que não. e só relembrei que carregava meus pontos de saída e entrada quando ele abriu minha carteira, os olhou, perguntou meu nome, eu respondi certo, ele olhou de novo, pediu minha identidade novamente, eu dei, ele olhou de novo e me disse – pode ir. agradeci olhando nos olhos dele, no que ele respondeu – boa noite. nessa abordagem, já não tenho tanto medo. já me aventuro a olha-lo. sei quem eu sou. e ele já sabia quem eu era; que não seria eu quem iria rodar daquela vez.

neste momento olímpico, a região central carioca, onde trabalho, tem nisto um pretexto para limpar a cidade dos homens jovens perigosos. hoje fui visto como um desses pelo p m. e entendi nisso que corro um risco provavelmente maior da violência policial do que da violência perpetrada pelos que tem o corpo parecido com o meu. essa abordagem que sofri há pouco foi normal, semelhante ao que já vivi. mas poderia ser outro p m, que plantaria drogas em meu bolso, que seria abusivo, que conseguiria me levar mesmo sem flagrante algum, ou mesmo que me violentaria fisicamente.

peguei meu ônibus. sempre sigo rumo à penha circular. quando dei sinal para saltar, percebi que o motorista parou o carro uma boa distância depois do ponto e, logo que eu desci, ele arrancou. só aí vi que um grande grupo de jovens parecidos comigo havia dado sinal no mesmo ponto em que naquele momento eu chegava. eles, que pela arrancada estratégica do motorista não conseguiram pegar o ônibus, gritaram e o xingaram. observei então suas chuteiras e uniformes; voltavam de sua pelada do fim de semana, e indignavam-se no ponto. num deles ainda restava certa jocosidade, que me despertou quando, risonho, ele gritou aos outros – mas também, olha só a cara dos marginais que deram sinal! (risos)

 

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Sem título. Amador e Jr. Segurança Patrimonial LTDA. Performance.

Os performers vestidos de segurança/ monitor institucional devem ficar
frente à obra que deve salvaguardar alterando, assim, sua visibilidade.

Cronograma:

Amador & Jr. Segurança Patrimonial realizará as performances na
abertura da exposição Intervenções: entre XIX e XXI, respectivamente dias 12 de Julho, durante todo o período de funcionamento do MNBA (das 12 às
17 horas). A performance acontecerá continuamente na galeria, sendo
estipulado entre os performers seus momentos de revezamento para
descanso.

http://processofolio.tumblr.com/post/136752942229/croqui-realizado-por-antonio-gonzaga-amador

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Antropologia da face gloriosa

 

(é o caso de falar de rostidade ?

(lembro agora que foi o antonio quem me disse, uma vez, que andar pelo saara de noite era mais seguro. pus aqui, mas acho que esse texto é só pra ele.)