Nair

PRÊMIO MERCOSUL DE ARTES VISUAIS

Proposta artística

Nair é nome da minha avó, uruguaia de nascimento, vinda ao Brasil em juventude, casada neste país com um José, português, que jovem faleceu. Já Nair, morreu depois de seu companheiro, deixando três filhos deste casamento e mais quatro netos, grupo que componho. Foi cremada, mas suas cinzas continuam guardadas em minha casa, aguardando o dia em que um de nós conseguirá realizar seu último pedido: ter seus restos mortais depositados na terra de Montevidéu, onde sua família residiu e ainda reside.

Conheci minha vó, mas pouco. Não sei quem foi esta mulher jovem que veio ao Brasil, que sentiu a fome quando foi mãe solteira com três filhos em uma casa suburbana no Rio de Janeiro, que sentia saudade de pessoas cujos nomes nunca me diziam nada para além de serem nomes; que nunca viravam imagens memorizadas de sorrisos ou colos.

Hoje proponho aqui, através do auxílio e interesse deste edital, levar as cinzas de minha avó para Montevidéu, encontrar sua família e negociar, tanto com esta quanto com meus parentes cariocas, que Nair – suas cinzas – seja depositada na área externa do Espacio de Arte Contemporáneo (EAC); uma intervenção que será invisível para grande parte da população, ainda que visível como um monumento para os que compartilharam da vida de Nair por laços parentais.

E, se tratando do translado Brasil-Uruguai, proponho realizar um diário, em que documentarei e refletirei sobre as condições de viagem, tanto minhas quanto de minha avó. Posteriormente criarei um fac-símile deste, a ser publicado em ambos os países, em material a ser desenvolvido e pesquisado no período de residência.

Tal diário permitiria ampliar e documentar assuntos chave aos latino-americanos, que permeiam a história de Nair e, por conseguinte, a minha: as relações de imigração que possibilitaram sua vinda ao Brasil num contexto pré-Mercosul; as cisões e interlocuções implícitas entre os dois países; suas barreiras idiomáticas, bem como suas contaminações mútuas (a que estarei sujeito, inclusive, ao atravessar as fronteiras dos países e a documentar em escritos diarísticos) e um certo exílio dos americanos ao sul; um deslocamento das condições de conforto que o capitalismo não pode oferecer à maior parcela de sua população, para dar conta de sua própria sobrevivência.

Já a intervenção que proponho à EAC, desejo que delineie a invisibilidade dum corpo latino-americano e que delineie a invisibilidade, em suma. Como Jochen Gerz em seu 2146 Pedras, Monumento contra o Racismo – quando, com a ajuda de seus alunos na Hochschule für Bildende Kunst Saarbrücken, retirou pedras de uma praça, escreveu em cada uma o nome de um cemitério judeu clandestino e as reposicionou com estas inscrições escondidas, viradas ao chão -, que Nair demarque uma sutil inscrição do corpo comum latino-americano num espaço público – que aqui proponho que seja um espaço da arte contemporânea, o EAC -. Ainda que tenha por risco ser monumental apenas aos meus parentes, esta intervenção tem de se submeter a isto: seu fracasso, posterior invisibilidade, documenta um segundo tipo de sucesso, onde não ser visto diz respeito ao que nunca poderemos ver por completo, mas coexiste conosco. Ver – sentido basilar às artes plásticas – aqui não é tão fundamental quanto ser. Esta é uma ode a um corpo latino socioeconômico pouco visível, geopoliticamente ou para nós mesmos, na América do Sul.

Pretendo usufruir da estadia desta residência para, sobretudo, construir pela relação. Pretendo usufruir da estadia desta residência não mais que da relação com os uruguaios e uruguaias com quem tenho parentesco; o que significa viver uma família, uma pátria e um corpo que não são meus, mas dos quais derivo. Nair será algo de mim nesta viagem e ação. Por ela não assinar comigo este projeto, o nomeio com seu nome. Espero que isto seja suficiente para dar conta de nossa anunciada incorporação.

Às suas cinzas, minha carne.

Plano de trabalho

Desenvolvimento do diário

Acontecerá durante o translado Brasil-Uruguai, abrangendo o período de viagem, contato com familiares uruguaios e posterior negociação a respeito do depósito das cinzas de Nair na área externa do EAC;

Ação

Se dará – ou não – mediante a plena concordância dos familiares de Nair em depositar suas cinzas na área externa do EAC. Em caso contrário, a publicação do diário dará conta de visibilizar ao público o prosseguimento da negociação e seus resultados;

Produção da publicação

Será idealizada em residência no EAC e discutida com parceiros conhecidos no período de residência e brasileiros – tendo em vista que sua editoração terá colaboração da editora independente ANTESSALA, a qual integro como fundador -, de forma que a decisão sobre sua impressão e disponibilização online (projeto gráfico, papel, tiragem exata, plataforma online etc.) seja desenvolvida como uma pesquisa atrelada ao desenvolvimento deste projeto.