Amigas de PAC, Efrain, Marcelo, muito prazer. Meu nome é Jandir.

Faltei aos nossos dois primeiros encontros. No primeiro estava numa residência. No segundo não me lembro, o que endossa a teoria que tenho para mim de que acabei dormindo nesse dia. Mas o que gostaria de destacar é que, ao chegar ao terceiro encontro, fui tomado de surpresa pela proposição de escrever cartas e, sobretudo, pela leitura que algumas pessoas aqui presentes fizeram das suas. Destas, as que leram diálogos que realmente existiram ou suscitavam existir com interlocutores reais foram as que me chamaram mais atenção. Ulisses, Maurício e Bia são as que me vêm à cabeça neste momento. Mas confesso que foi a carta da Bia que me impactou. Ela falou com praticamente toda a família naquela ligação! E eles, vó, vô, cachorro, falavam sobre o trabalho dela de maneira tão leve, tão familiar mesmo… que só foi ali, ao ouví-la ler seus diálogos, que percebi o quão sozinho eu tenho estado desde 2010, ano em que entrei na faculdade e comecei a fazer coisas em contato com as artes plásticas e visuais. Eu nunca falei sobre o que faço para minha família, pouco converso sobre isso com meus amigos de infância ou de outras áreas que não essa e nunca resolvi um problema num trabalho graças à sugestão de alguém (e, quando tentei incorporar generosas soluções de outras pessoas, abandonava o trabalho tão rápido quanto o tinha dado por terminado, por um desgosto profundo e imprecisável que se abatia em meu olhar para ele).

Pensando nessa solidão, lembro que antes de entrar na faculdade tinha um sonho: ter uma banda. Tentei realizar isso como uma meta de vida, sempre sem sucesso, dentre os circuitos que frequentei: na igreja católica, no emocore, no hardcore e na cena de música independente suburbana. Ao ver minha última banda se desfazendo, após 2 anos de ensaios e sem ter feito um único show até então, pensei que seria interessante entrar na faculdade naquele ano e ter contato com pintura, escultura e coisas assim, porque poderia fazer sozinho, sem depender de outros para concretizar meus sonhos de vida, sem depender de outras motivações, como numa banda, alheias à minha. No primeiro semestre de 2011 vendi minha guitarra, amplificador e outros equipamentos que usava, e desde então tenho esquecido gradualmente os acordes das músicas que compus.

Amigos do PAC, Efrain, Marcelo. Acho que, escrevendo esta carta, entendi que continuo buscando estar sozinho e essa liberdade que ansiei na solidão lá em 2010 e 2011… talvez por isso tenha me sentido sozinho ao ouvir a Bia ler a carta dela, e talvez isso signifique que estou dando certo nesse empreender solidão. Ou talvez signifique que estou absolutamente errado, e por isso me senti mal por essa sensação de solidão que me abateu.

Contudo, vocês são inteligentes. Devem já estar pensando que é impossível estar só. Eu mesmo penso agora no absurdo que é falar que se almeja a solidão aqui, num programa que reúne tantas pessoas (uma centena, imagino) em contato tão intenso, de tanto compartilhar, habitar-se, de se “estar junto”. Não tenho forma de amenizar ou pensar mais meu absurdo em dizer que busco a solidão. E acho que prefiro rir com vocês de tudo isso e tudo o mais ao continuar rendendo minhas palavras aqui.

Imaginando que neste momento eu esteja ansioso e um pouco nervoso por terminar a leitura e erguer meus olhos desta página aos olhos de todos vocês, dato, assino e dou um ponto final a esta carta.

20/08/2015

Jandir.

Carta às amigas e amigos do PAC, Efrain e Marcelo, realizada em proposição  de Efrain Almeida e Marcelo Campos no programa de Práticas Artísticas Contemporâneas – Nível II, da Escola de Artes Visuais do Parque Lage | 2015