Publicação do texto Rotunda à vista – A falha do módulo de destruição e os piratas na décima edição da revista Usina | 2014

 

Rotunda à vista! – A falha do módulo de destruição e os piratas

A visita à exposição Cabeça, de mais de cem obras que faz um restrospecto da produção do artista Milton Machado, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), começa com as obras Módulo de Destruição e Nômade, instaladas logo na entrada, na rotunda do espaço. O artista […], no entanto, sugere que os olhares dos que passarem pela mostra iniciem o percurso na Sala C […] e na Sala D […].

“Um visitante desavisado poderá julgar que aquele cubo e aquela esfera na rotunda não passam de uma gaiola ou uma jaula aprisionando uma bola”, explica Milton, com humor. ¹

Em civilizações sem barcos, esgotam-se os sonhos e a aventura é substituída pela espionagem, os piratas pelas polícias. ²

Entrar no CCBB definitivamente não foi entrar no CCBB naquele dia. Ou talvez tenha sido. A sensação que tive está num espaço entre o que as duas sentenças acima querem representar. Afirmaria, contudo e usando as letras em precisão agora para isso, que a obra de Milton Machado que estava na rotunda do prédio não contribuiu de todo para esta sensação. Sendo sincero, contribuiu minimamente, doou sua percepção em outras direções que não somente a mim e abriu clareira ao que lhe era outro. Cortando o espaço com seu gradil em cubo e aliviando este corte com outro cubo, que desenhava o ar com suas bordas, desejava constituir-se obra e falhou.

Pode parecer bobo isso de dizer que a obra falha – “Tanta água já rolou de instalação, happening, arte participativa, site specific… Como não compreender que a obra se conjuga com o espaço, tornando-se neste encontro? Não mais importa a concepção de obra, mas importa a concepção de processo…” – poderia se dizer. Contudo há uma causa. Por conseguinte, um por quê.

Muito além da alteração que o trabalho proporcionava ao espaço e a meu corpo, ou o inverso disso, já que não sabemos onde começa e termina o espaço, onde começa e termina o corpo, havia um casal insólito habitando aquele lugar no meu momento: um jovem travestido de Salvador Dali segurando um diminuto relógio derretido; uma imponente mulher em um longo azul. Eles deslizavam pelo local. Sendo presentes, tens(c)ionavam aquele gradil, pois minha mente reconstituía-os em inteireza. Não estavam submetidos àqueles cortes espaciais, cortavam-os eles mesmos com elegante poder. E, compondo o cenário, me via imerso em surrealidade, conspurcando CCBB e instalação.

Passado outros dias visitei novamente a instalação, acompanhado e conversando com uma pessoa apenas. Falávamos de internet e como se apropriar dela inventivamente, sem precisar obedecer aos padrões estabelecidos por redes sociais. Víamos algumas pessoas tirando fotos junto ao trabalho e pensei que eram condescendentes para com aquilo, separavam e reverenciavam bem essa distância. Mas ouvi que não, que aqueles não apropriavam do trabalho ao tirar uma foto com ele, mas o reinventavam, empregavam-lhe outra possibilidade; invadiam, em suma. Neste momento algumas crianças e adultos colocavam seus braços dentro do espaço que o gradil separava. Invasores, impregnavam de forma e conteúdo aquela visualidade. Deturpavam e deturpavam.

O texto de parede dizia que esta não era uma exposição cronológica, retrospectiva, mas que desejava uma deriva criativa pelo espólio de Milton Machado. Entretanto, este texto não concebia a exposição como lugar em que se vê o que reside fora das bordas das obras emolduradas, formadas e propostas (que jamais poderão prever e incorporar seu exterior, pois prevalecem na dicotomia). Sei que pode parecer, com isso, que me engano quanto à falha e que a obra sobrevive intacta, pois, supostamente, falo de minha atenção titubeante, que vai do trabalho de arte a outro polo qualquer. Mas não. Isso que silhueta a falha, derivando de fora da obra e a desmantelando, trazendo audiência, artisticidade, e espaço expositivo para si, não parte de mim enquanto espectador, mas dos que me circundam e fazem como memes: viralização do criar naquilo, à moda das modas que surgem a cada segundo em nossas timelines; usa-se o original como base, pervertendo-o. E esta inflexão é necessária, pois denota que a dita falha do trabalho (já não mais importando se módulo de destruição ou superfície modulada³) é sintoma de borda: acredita-se em arte como processo enquanto, na verdade, os piratas invadem a obra e tomam o que era dela.

Ainda assim, a tranquilidade da instituição e a tranquilidade do artista para com os feitos pirateadores têm convencido que estes atos são obra ou, como no pensamento estético corrente, que se desejam essas relações, constitutivas do coeficiente artístico na mirada de nossa contemporaneidade. Funciona esse discurso, mas só quando não se percebe ou não se fala a falha e seu polo de equilíbrio, a pirataria; ato que só o outro, aquele que reside fora da borda, pode exercer. Desvelado este discurso, percebido então como perspectiva de alguns, a tranquilidade institucional evanesce; revela-se suposta.

Enquanto visitava a exposição de Milton Machado, encontrei fones no canto da galeria. Colocando-os nos ouvidos, não escutei nada. Ainda assim permaneci com eles por algum tempo, talvez distraído, pensando ao invés de agir a partir da ideia de inutilidade daquele aparato. Todavia, antes que pudesse tirar os fones por minha vontade, fui cutucado com violência por um segurança que monitorava o espaço. Retirei-os e ele disse, em voz alta, que o trabalho estava inoperante, que já havia sido solicitado que a manutenção o consertasse. Agradeci, ainda que curioso em refletir por que sua abordagem foi tão brutal. Agora sei: a falha estava ali, mas o perigo iminente da falha operava em mim.

Notas:

  1. A lógica de Milton Machado – Revista | Cultura.rj. Disponível em: <http://www.cultura.rj.gov.br/materias/a-logica-de-milton-machado> Último acesso em 30/08/2014
  2. Michel Foucault. Outros espaços. Disponível em: <http://www.historiacultural.mpbnet.com.br/pos-modernismo/Foucault-De_Outros_Espacos.pdf> Último acesso em 30/08/2014.
  3. Referente à série de trabalhos de Lygia Clark nominada planos em superfícies moduladas. Interessa-me sua inserção nessa parte do texto por uma possível correlação antagônica entre certo caráter distópico, projetual e realizável no suporte bidimensional na História do futuro de Milton Machado (trabalho processual que engloba o Módulo de destruição citado) ante características utópicas (no caráter moderno que lhes gera), construtivas e de imanente embate com a superfície expressiva nas modulações de Lygia. Mais sobre a série em: < http://www.lygiaclark.org.br/arquivo_detPT.asp?idarquivo=9> Último acesso em 05/09/2014.